30 novembro 2017

Sermão em João 10.9: A Porta aberta para a vida, e fechada para a morte!




Jorge F. Isah





“Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens.” João 10:9


INTRODUÇÃO:

- Deus usa de uma linguagem figurada, metafórica ou simbólica, para descrever verdades tanto relativas a Si, a sua criação e a realidade.

- Muitas vezes, ele é chamado de Rocha, Rochedo ou Fortaleza, como, p. ex., em 2 Samuel:

“Vive o Senhor, e bendito seja o meu rochedo; e exaltado seja Deus, a rocha da minha salvação” 2 Samuel 22:47
E em Salmos:

“Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; assim, por amor do teu nome, guia-me e encaminha-me”. Salmos 31:3

- Ele é também chamado de Pastor, como no próprio Cap. 10 de João, e no Salmo 23.

- Também se autointitula o “pão da vida”:


“Eu sou o pão da vida.
Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram.
Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra.
Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo.


- São imagens e alusões, como uma ilustração (é como se Deus desenhasse) a facilitar a nossa compreensão daquilo que ele nos revela de Si, como ele age junto aos seus filhos.

- Tudo isso é necessário por causa da Queda, que contaminou o intelecto, a razão e alma do homem.

- Deus cuidadosamente, como um pedagogo, nos ensina o “Beabá” da sua revelação por meio de ilustrações, possíveis ao entendimento, em princípio de qualquer um. São associações que Deus utiliza para nos levar ao conhecimento.

- Tal qual uma professora junta as letras e ensina as crianças a lerem e formarem as palavras.

- Entretanto, sabemos que somente aqueles que são chamados por ele, e capacitados por ele, podem alcançar a compreensão tanto das coisas simples como das complexas.

- Para um doutor em teologia, mas inconverso, até as referências mais básicas lhe escaparão o sentido, enquanto para o crente, aquele transformado pelo Espírito de Cristo, as mais profundas tramas da revelação lhe serão patentes e claras.

- Com isto, não estou a dizer que todo o crente pode entender tudo aquilo revelado por Deus, nem de que alcançará a sabedoria plena de toda a revelação; mas certamente terá a medida exata daquilo que Deus lhe der, segundo a sua santa vontade.

- Entretanto, são verdades apresentadas, e que não devem ser alvo de dúvidas ou imprecisões.

- P. Ex., em Isaías, lemos a afirmação da eternidade divina:


“Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos fins da terra, nem se cansa nem se fatiga? É inescrutável o seu entendimento.” Isaías 40:28

E ainda:


“Mas o Senhor Deus é a verdade; ele mesmo é o Deus vivo e o Rei eterno; ao seu furor treme a terra, e as nações não podem suportar a sua indignação.” Jeremias 10:10


- A eternidade talvez seja um dos atributos divinos mais difíceis de se entender, exatamente por estarmos no tempo, e por sermos temporais. Muitos entendem a eternidade como uma sucessão de momentos, uma sequência de “tempos”, quando ela não pode ser compreendida a partir do temporal, da sucessão de instantes, mas como sendo o próprio Deus, que é eterno.

- Mas este não é o nosso foco, falar da eternidade, apenas afirmar que, mesmo não a entendendo por completo ou mesmo o suficiente, importa que a Escritura afirma a seguinte máxima:

“DEUS É ETERNO!”

- Ou seja, a nossa ignorância ou incapacidade ou incompreensão não devem ser justificativas para a incredulidade e a falta de fé. Se Deus disse que ele é eterno, Deus é eterno, e ponto final!

- Da mesma forma, neste verso 9, o próprio Senhor Jesus se autodenomina “a Porta”.


CRISTO: A PORTA!! MAS EM QUAL SENTIDO?

- “Eu sou a porta”, afirma o Senhor.

- Primeiro, devemos ressaltar que Cristo não se intitula “uma” porta, mas a porta. Não existe outro meio ou forma de o homem se salvar sem ele, ao contrário do que boa parte da humanidade defende e preconiza.

- Sabemos que ele não é, também, uma porta no sentido literal, uma peça de madeira, vidro ou metal de fato. Seria loucura pensar isso.

- Mas, de imediato a ideia de Cristo como uma porta nos remete a elementos característicos dela, e que estão presentes na pessoa e ministério do Senhor. 

Vejamos alguns:

1- Cristo, como porta, abre-nos o caminho santo que nos levará a Deus.
- Uma porta é utilizada para abrir um local, permitindo que pessoas a atravessem e entrem ao recinto antes impenetrável.

- Não é difícil a alusão à nossa condição de impossibilitados, incapacitados, impedidos de entrar em comunhão com Deus, e de entrar no gozo eterno nos céus. Havia uma parede intransponível que nos impedia o acesso a Deus, por isso precisamos de uma porta.

- Deus nos propiciou Cristo e o seu sacrifício na cruz, a porta pela qual somos transportados e postos no lugar que Deus reservou para o seu povo.

- Sem Cristo, como a porta, o homem estaria irremediavelmente perdido, sem qualquer possibilidade de haver salvação. É o que Paulo nos diz:


“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” 1 Timóteo 2:5

- E Pedro o confirma:


“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” Atos 4:12


2-Cristo, é a porta que, fechada, nos protege, preserva e guarda.

- Quando uma porta se fecha, estamos seguros. É uma analogia, mas ela serve muito bem para nos mostrar o cuidado que o Senhor tem pelo seu povo.

- Todas as nossas casas têm portas, para nos manter seguros. Elas nos livram e protegem de predadores, das intempéries, e das investidas dos salteadores, ladrões e assassinos.

- Mantemos as nossas portas fechadas por segurança, para não sermos molestados, termos os bens roubados, sermos feridos ou mortos.

- Cristo é a porta que, fechada, nos assegura o refúgio e segurança imprescindíveis, mantendo-nos em paz, aconchegados, nos livrando das artimanhas e investidas do Maligno e de seus servos.

- O próprio Senhor nos disse, um pouco mais abaixo, neste mesmo evangelho de João, que:


“O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.” João 10:10


- Cristo é a única porta capaz de nos proteger, impedindo que Satanás cumpra o seu propósito de nos arrolar para o fogo do inferno para o qual foi preparado, e que o espera.

- Então, além de Cristo nos dar acesso a Deus e ao seu reino de glória, ele é aquele que nos preserva em seu amor e graça, mantendo-nos livre da condenação.

3- Cristo é a porta fechada para o satanás e o mal.

- Ele nos impede de “voltarmos ao vômito”, de sermos novamente aquilo que éramos sem ele, de que o velho homem renasça, aquele mesmo mortificado pelo Espírito, mas cujas lembranças nos atemorizam ainda.

- Ele é ainda a porta que, fechada, não permite que saímos do seu arraial ou curral, e sejamos novamente presas fáceis para o pecado e o mal. Ele nos protege de nós mesmos, daquele velho homem que, morto, teima ainda ressurgir em nossas vidas.

- Creio que todos os crentes temem recair nas velhas práticas do homem natural, daqueles que são inimigos de Deus. Pois é Cristo quem nos assegura que nunca mais seremos aquele homem, novamente. 

- Esta é uma das certezas que temos quando Cristo diz: “Eu sou a porta”.

- Outra certeza é de termos alimento em abundância.

- Suas ovelhas nunca terão fome, e se alimentarão nas abundantes pastagens.

4- Cristo é a porta que impedirá Satanás e seus servos de entrarem e nos arrastarem para fora. Ele não permitirá que o sirvamos de novo, e que ele tente nos “sequestrar” de suas mãos.

- Estamos firmes, seguros e protegidos no lugar em que Cristo nos colocou, reservando-nos eternamente para a sua glória, e para a comunhão perfeita que temos consigo, o Pai e o Espírito.


CONCLUSÃO:

- Cristo é a porta que manterá as suas ovelhas sob a sua guarda, condução, proteção.

- Cristo é aquele que ajunta as suas ovelhas, reunindo-as nas “terras” do Pai.

- Ele é quem as dá vida, garantindo que jamais vejam a morte.

- Ele é quem impede que elas se dispersem, enfraqueçam, e sucumbam a própria inépcia.

- Ele é quem as preserva para a vida eterna.

- Quem as livra da condenação e do inferno.

- Cristo é a única, suficiente, e verdadeira porta. É ele quem nos atrai, preservando e garantindo a nossa segurança, mantendo-nos santos e imaculados diante do Pai.


- Cristo é tudo!

- E assim, sendo tudo em nós, para sempre estaremos com ele, e o nosso gozo será completo!

SOLI DEO GLORIA!


21 novembro 2017

When Calls the Heart: Encontre os valores perdidos neste mundo.




Jorge F. Isah


Há algumas semanas, descobri "When Calls the Heart" no NetFlix, quase por acaso. Como não assisto TV aberta há uma década, mais ou menos, e a TV a cabo tem-se tornado insistentemente repetitiva e banal, vou direto à plataforma de Streaming em busca de alguma diversão, diga-se, nem tão frequente assim. Então, meio que "tropecei" na série.

Em princípio, ela me lembrou, já nos créditos iniciais, "Os Pioneiros", porque o produtor, idealizador e diretor é o filho do Michael Landon (O “Little Joe”, de Bonanza; e idealizador, produtor, diretor e ator principal de Os Pioneiros), além de uma série dos anos 1970 que marcou a minha adolescência, "Os Waltons". Mas a semelhança não para por aí. Não sei dizer se o Landon, pai, era cristão, muito menos se o Landon Jr. o é, mas a temática das histórias centra-se exatamente nos valores e princípios emanados do Cristianismo: fraternidade, amor, solidariedade, fidelidade, coragem, hombridade, etc. 

É claro que nenhuma série refletiria a realidade se não tivesse as suas porções de egoísmo, inveja, orgulho, ciúmes, cobiça, traição, e outros pecados comumente manifestados pelos homens. O diferencial é que nela não existe nenhuma exaltação dos erros, nem a contemporização com eles, antes são tratados como devidamente são: falhas, equívocos; há o chamado ao arrependimento, o estímulo às virtudes, e a uma vida permeada pelo favor divino (mesmo nas tragédias). Sim, você encontrará orações, pregações, diálogos e um sem número de referências a Deus e à Bíblia. É pouco? Para mim, não é de se desprezar. 

Bem, não farei uma resenha da série, nem entrarei em seus pormenores, porque o meu objetivo é indica-la para os desconhecidos que, como eu, talvez viessem a conhecê-la por um “acaso”, fortuitamente. Sei que muitos torcerão os narizes, pela simplicidade da narrativa e dos personagens, mas exatamente por isso, por serem comuns mortais, gente como a maioria de nós, está o seu encanto, quando nos vemos em muitas das situações narradas, criando uma empatia, até mesmo pela nostalgia de tempos vividos, e que estão muito distante das misérias que cercam as relações pessoais em nossos dias.  Para mim, tem sido um “oásis” em meio às programações e noticiários hodiernos, a toda a psicopatia reinante nas várias mídias.

Gostaria, sinceramente, que houvessem mais “Landons” na televisão e no cinema, e que as pessoas não se entregassem às distrações que as conservam em um quase estado de paralelismo existencial.

É o olhar do mundo imperfeito, mas descansando na esperança de que, Aquele que é perfeito, o transformará e o restaurará.


Nota: 1-A série pode ser assistida no NetFlix, que já teve quatro temporadas concluídas. A quinta temporada será lançada em breve. É uma produção do estúdio Hallmark Movies, pródigo em fornecer ficção baseada em livros autobiográficos, e que estão completamente "fora da curva" do que o cinema e tv andam realizando atualmente, com raras e providenciais exceções. 

2-Pesquisando, na Web, encontrei a apresentação do Allan dos Santos à série, disponível no Youtube no link abaixo. Aos interessados, mais um depoimento de quão boa, e surpreendente,  é essa novela: 

"Dica de seriado", no Terça Livre

02 novembro 2017

Apenas o amor eterno de Cristo pode absolver a inimizade eterna do homem





Jorge F. Isah



Introdução


Este é um trecho pinçado de um estudo e meditação no verso de Romanos 13.10, e que já suscitou três pregações, duas já publicadas, e uma ainda a ser publicada aqui, no Kálamos (entre outras postagens que farei sobre o tema), o qual é o seguinte:

"O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor."

No trecho abaixo, abordarei a questão da impossibilidade do homem cumprir a lei, e da necessidade do Salvador divino-homem, Jesus Cristo. É claro que esta abordagem não é exaustiva, nem tem pretensão de sê-la; é muito mais uma apresentação do tema, e da análise de que o Justo, Santo e Salvador teria de ser poderoso, infinito e eterno, algo que está muito além, e aquém, da condição humana em sua finitude e corrupção.

Espero, se assim Deus o quiser, em breve, tecer e aprofundar-me mais no assunto, aparando as muitas arestas, sem que vá criar outras, é o que tenciono. Oro, para Deus me abençoar, e ao leitor, que antes de se debruçar sobre este texto, reconheça que o meu único objetivo é ser fiel à verdade, Cristo, o qual quero, acima de tudo, glorificar e honrar, como prova da minha mais profunda gratidão, por quem ele é, fez, e, sobretudo, pelo amor com que me amou eternamente.

Soli Deo Gloria!!


Cristo e a Lei

Alguns cristãos reputam a lei como maléfica, como um entrave à santificação e à comunhão com Deus. Tendo em vista o seu caráter obrigatório, uma exigência, entendem ser isso danoso para a vida espiritual do homem. A premissa é, muitas vezes, a de que: se não se é capaz de cumpri-la totalmente, não se deve preocupar em cumpri-la em qualquer de seus preceitos. Ora, essa não é outra senão a heresia do antinominialismo, que defende a vida cristã sem qualquer lei, apelando para a graça absoluta. É claro que a graça é absoluta, pois procede do Deus absoluto, mas estaria o homem dispensado de cumprir a Lei por um mero capricho da graça? Ou seria a graça o fomentador do cumprimento da Lei, de maneira que o homem se aprimoraria no desejo íntimo e sincero de obediência a Deus e à sua vontade? Estaria a Lei alijada da graça e vice-versa? Ou ambas seriam manifestações divinas unidas por sua vontade sobrenatural de nos fazer semelhantes a Cristo? Homens imperfeitos sendo cada vez mais identificados com o Senhor que os salvou, chamou, transformou e santificou? A salvação prescinde o zelo? E a eleição a obediência? Penso, categoricamente, que não!

A alegação de quem defende uma posição de antinomia é de que cumprir a Lei seria farisaísmo, hipocrisia, e uma atitude legalista, manifestações pecaminosas daquele que não tem a graça sobre a sua vida. Acreditam que a graça se manifesta cada vez mais onde o pecado abunda. Tomam de Paulo uma afirmação e lhe dão outro sentido, distorcendo-o, tornando em mentira a verdade, em engano a fidelidade, em morte a vida.

“Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça;
Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 5.20-21)

Este trecho não sanciona o pecado, muito menos o estimula ou anula, como se o homem, debaixo da graça, pudesse abusar dela, tornando-a em desgraça. O apóstolo não está dizendo que quanto mais se peca, mais a graça se manifesta, mas que Deus, em seu amor e bondade infinitos, não levou em questão a multidão de pecados do seu povo, derramando sobre a propiciação dos pecados, ou seja, o sangue de Cristo derramado na cruz nos livra da condenação e separação eterna de Deus. Não é um salvo-conduto para o pecado. Nem o tratar com desprezo ou trivialidade. Muito menos uma forma de incentivo ou ânimo. Paulo está a dizer que onde haveria condenação e punição, Deus nos entregou a sua absolvição. Sendo todo o pecado uma ofensa direta a ele, somente o Senhor poderia nos perdoar e absolver. O duro e feroz julgamento ao qual fazíamos jus, recaiu sobre o seu Filho. Alguém teve de pagar a pena, e não fomos nós. Porque nos era impossível quitá-la. Apenas o Deus-Homem, 100% Deus e 100% Homem poderia realiza-lo; ninguém mais.

Quando Adão cai, todos nós caímos. O pecado nos foi transmitido como por uma doença altamente contagiosa, da qual ninguém a não ser o Santo estava imune. Sim, ainda que fosse uma possibilidade, a de que Cristo pudesse pecar, não havia potencialidade nele para a transgressão, para a rebeldia. Pelo contrário, como ele mesmo disse, viera ao mundo para fazer a completa vontade do Pai, cumprindo toda a Lei, e padecendo como um inocente.

Naquela cruz, o Santo, imaculado, sofreu o castigo que nos pertencia, do qual não poderíamos nos livrar, se o esforço empreendido fosse nosso. Por mais empenho e disposição no sentido de obediência à lei divina, ela estava a nos acusar a todo momento, espetando-nos com sua ponta dura e letal, desferindo golpes mortais na carne e na alma, fazendo-nos definhar pouco a pouco ao seu castigo, à sua implacável justiça.

Com isto, não estou dizendo que a Lei é pérfida ou injusta, mas de que ela, sobretudo, aponta-nos a condição de perdidos, afastados, inimigos de Deus, quando a transgredimos, quando insidiosamente tentamos burlá-la, negligenciá-la, desafiá-la, desrespeitá-la. Assim fez Adão. O homem que deveria cuidar da mulher, de toda a criação, como mordomo instituído por Deus, sucumbiu aos apelos néscios de Eva. Da serpente. Não foi a Lei a instiga-lo, mas a cobiça. Não o preceito a inflamá-lo, mas a soberba e a vaidade. A santidade já não era possível ao coração inclinado à desobediência. A pureza não mais o dominava; a fleuma da concupiscência tomava-lhe o lugar. Nem toda a profusão de bênção e favores dados por Deus seriam capazes de impedir o ingrato de desprezá-lo. Adão olhava o fruto. Apetecia-lhe o fruto. Desejava-o. Não resistiu a tocá-lo. Nem o comer. O cravar-lhe os dentes foi apenas o ponto final de uma longa trajetória de declínio e morte. Não foi o início, mas o desfecho final da tentação, da rebeldia presente nos primórdios do seu desejo.

Adão pouco a pouco se convenceu de que a realidade apresentada por Deus era falsa, mentirosa, e de que a ilusão proposta pela serpente era factível e verdadeira. Não sabemos quanto tempo durou o convencimento para a queda. Segundos, minutos, horas. Talvez dias. O certo é que quanto mais se deixava enredar pela fraude, mais ela se solidificava em seu coração. O pecado se agigantou, tomou-lhe a vida, e não mais era possível resistir, a partir de certo ponto. Adão poderia manter-se fiel a Deus com uma simples recusa: bastaria expor a serpente ao ridículo, lançar-lhe em rosto a sua desfaçatez e ignomínia. Como ele poderia se deixar enredar por alguém de quem pouco ou nada conhecia?

Ao contrário, Deus já havia lhe provado quem era, não poderia existir dúvidas de quem era; os seus feitos, a sua bondade, o seu cuidado, misericórdia e providência falavam por si. Era clara e nítida a boa vontade divina para com o casal; entretanto, negaram ouvir a sua voz, dando trela à serpente (deixando-se enganar) que se viu estimulada a permanecer firme no intuito de destruí-los.

Não é assim que procedemos, negando ouvir a voz de Deus, em favor do nosso eu ou de outro eu? Em disposição, ainda que sincera, de sermos ludibriados? De não reconhecer aquele que é o doador de todas as coisas, que age com infinita misericórdia, para entregar-nos a nós mesmos ao ladrão de corações? O inimigo odioso de almas? Ah, quão triste será para aqueles que se entregaram ao grito estridente de morte do diabo; passar a eternidade em tormento e castigo indescritível com o algoz. Não satisfeito em aniquilar-se, arrogante e presunçoso, arrasta consigo multidões de tolos que se entregam às suas artimanhas. Vê-lo sendo castigo poderá trazer algum alívio, mas não impedirá aqueles que o seguem de compartilhar da sua dor. Não importa em que nível, o flagelo de satanás e seus anjos será o mesmo do homem reprovado. Se o sangue de Cristo não o alcançar, a vara imperdoável de justiça do Pai o flagelará. Apenas o Filho pode livrá-lo da tormenta no inferno; e bom seria se cada um dos homens se apercebesse disso o mais rapidamente possível. Mas sabemos que o coração indolente e obstinado somente poderá reconhecer-se como tal se quebrantando, se esmagado pelo amor de Cristo, o qual nos constrange. A dureza e impertinência da morte tem de ser esmigalhada, pulverizada, pela graça, a fim de que um coração de carne viva.

Se Cristo não o encontrar, o homem jamais será achado. E se perderá definitivamente na própria multidão de pecados. Enquanto as transgressões o sufocam, o imobilizam em correntes de contenção, o desespero antecede a dor, enquanto o verdugo se aproxima, e não lhe restará nada além de lamentar amargamente, ou praguejar estupidamente, pela derrota que tão desleixadamente acalentou, cultivou, em meio aos alertas insistentes da palavra, e à exortação para reconciliar-se, abandonando os caminhos erradios, a fim de seguir os passos de Jesus.

Enquanto Adão for o protótipo do homem, a voz da serpente estará sempre a soar em seus ouvidos, como o sibilar da mais terrível desgraça. E mesmo quando for picado fatalmente, acreditará ouvir o som matinal dos pássaros, como se o despertassem para a vida, quando ela é uma lembrança antiga dos tempos em que o homem vivia no paraíso; mas em sua confusão, desnorteado, era incapaz de retomar o caminho. O único guia e mestre foi desprezado; o cego a acurar os ouvidos ao chamado próprio, ou ao apelo de outro perdido.


O Cumprimento da Lei

Como disse, era impossível ao homem cumprir a lei. A própria condição humana, desde o nascimento, já a torna impeditiva e impossível de ser cumprida. Nascido em pecado, tornado desde o ventre um transgressor natural [em sua natureza o homem já dispõe desta característica, estando inviolável para o bem e a santidade por si mesmo, uma vez que carrega no seu âmago a marca do pecado herdada de Adão], mesmo sem ainda ter praticado, levar a efeito ou colocar em prática o pecado, a semente está ali, germinando, desenvolvendo-se, a fim de dar os seus frutos, no tempo devido.

A ideia de que o homem pode, em algum sentido, cumprir a lei é uma fanfarrice de quem a defende. A lei não veio salvar ninguém, nem lhe dar alguma condição de autossalvação. Pelo contrário, ela vem nos acusar, nos molestar, revelando a completa e total incapacidade de ser cumprida por pecadores. Sim, o pecador não pode cumprir a lei, ainda que o faça extemporaneamente, ainda que a obedeça parcialmente, ainda que se esforce para manter-se dentro da lei, o fato é que, para os homens naturais, essa é uma empreitada impossível. Não é o que Paulo nos diz? Ou estaremos indo por algum eflúvio ilusório e condescendente ao afirmar algo que nega por completo o testemunho bíblico? Senão, vejamos a afirmação do apóstolo:

“Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus.
Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.” (Rm 3.19-20)


Não há como ser mais claro! Os versos nos remetem à incapacidade humana de se auto justificar diante de Deus, pois é ele quem nos justifica, e com a sua perfeita justiça nos faz justos diante dele. Evidente que aqueles que são alcançados por ela desejarão ardentemente cumprir toda a lei. Querem, no mais íntimo do seu coração, fazê-lo por gratidão, por amor, porque Deus em sua infinita bondade e misericórdia não levou em conta as transgressões e ignorância do seu povo, mas decidiu salvá-lo. Não somente para si, mas dele mesmo. Cada um de nós, eleito do Senhor, foi salvo da própria condição de inimigo, de miserável, e cego, e nu, para reencontrar-se com o Senhor, ter comunhão eterna com ele, e deliciar-se plenamente nele.

Paulo não revela qualquer possibilidade do homem cumprir a lei. É algo impossível! A lei veio apenas para revelar, deixar patente a pecaminosidade do homem. É como um espelho invertido a refletir aquilo que não somos, não alcançamos, nem realizamos por nosso esforço próprio. Nenhuma carne pode ser justificada diante de Deus pelas obras da lei, mas é pela justificação graciosa de Deus que somos capazes de realizar essas obras. É pelo sacrifício de Cristo, o qual nos justificou, imputando-nos a sua justiça, que ardentemente desejamos cumprir a lei; ainda que caíamos vez ou outra em seu rigor e impraticabilidade por causa de haver, por ora, em nós, a possibilidade do pecado, dele ainda se insurgir, em seus últimos estertores, querendo reavivar o velho homem, e dominá-lo. Contudo, ela nos remete ao que seremos, quando não mais houver a chance de pecarmos; seremos santos como santo é o nosso Senhor, e então a lei, aquela escrita no coração de Adão antes da queda, será completamente escrita em nossos corações, e não mais o mal nos tocará, nem os desejos impuros nos insuflarão, nem a fraqueza nos tomará, nem a queda nos levará ao chão. Haverá em cada eleito apenas a santidade plena, a obediência completa, o louvor perfeito, a a gratidão absoluta ao Deus que, graciosa e benignamente, nos imputou. Entretanto, neste tempo, ainda convivemos com o pecado, com a maldita marca herdada de Adão, e a lei apenas nos faz lembrar aquilo que ainda somos, e o quanto ainda ofendemos a Deus quando deixamos que ela nos conquiste, domine, e realize em nós a sua vontade mortal.

Assim, nenhum homem pode cumprir a lei, nem mesmo aqueles bebês que morreram antes de cometer qualquer pecado, pois mantém-se pecadores. A semente do Éden está inserida em suas almas de uma maneira tão destrutiva que a morte lhes aprisiona ainda no nascedouro. E essa é a prova de que, nem mesmo eles são santos, ou têm justiça própria, mas carecem da santificação e justificação de Cristo.

Da mesma forma que uma oliveira é uma oliveira, ainda que não tenha dado frutos, o homem é naturalmente pecador mesmo que ainda não tenha cometido uma única transgressão. Se em Cristo existe a possibilidade de pecado, por causa da sua natureza humana, mas não há, de fato, a potencialidade para o mal e a transgressão, em nós tanto se encontra a possibilidade como a potencialidade e, no fim das contas, será apenas questão de tempo para o pecado se manifestar efetivamente, nos atos e atitudes de rebelião e ofensa a Deus e sua lei. Porque a essência humana é o pecado, assim como a de Cristo é a santidade.

Então, apesar da lei ser um norte, um orientador para o homem não ofender a Deus, não pecar contra o próximo e contra si mesmo, ainda que se possa cumprir um ou vários de seus preceitos, não nos é permitido cumpri-los integralmente, a fim de a lei não ser violada, e a justiça satisfeita. É o que nos diz Tiago:

“Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos.
Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não matarás. Se tu pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei" (Tg 2.10-11).


O condenado, para ser liberto, tem de cumprir toda a pena; no caso da ofensa a Deus ela é impagável, pois sendo Deus eterno e infinito, a ofensa atinge-lhe em sua eternidade e infinitude. O pecador gastaria o “sempre” e jamais quitaria a sua dívida. Seria eternamente devedor da ofensa. Ao nascermos com o pecado original, separados de Deus, a lei maior, aquela que nos coloca em comunhão e sujeição ao Criador, foi quebrada, transgredida, pela desobediência e inimizade, não restando ao homem nada além de se lamentar, chorar, e clamar por misericórdia. Porque o pecado é o muro intransponível que impede o homem de ter comunhão com Deus, uma barreira erguida no seu coração, onde o desejo perverso e corrompido tomou-lhe de assalto o lugar onde deveria habitar a gratidão e o louvor ao Criador. Logo, a inimizade eterna somente poderia ser quebrada, absolvida, pelo ofendido, que em sua natureza eterna livraria o homem das consequências perenes de sua transgressão. Ou seja, apenas Deus pode tirar o homem dessa condição; e se ele não o fizer, ninguém mais pode. Por isso, Satanás, ainda que se arrependesse amargamente pelos seus pecados, ainda que derramasse todas as possíveis lágrimas que tivesse, ainda que ficasse de joelhos por todo o restante da sua existência, ainda que se flagelasse diuturnamente, ainda que fizesse todo o bem de que é incapaz de fazer, ele jamais pagaria o preço da sua rebeldia. Não há como criaturas temporais quitarem uma dívida com o ser supremo e eterno. Apenas se deve esperar o perdão, clamar por ele, e aguardar que a justiça divina seja satisfeita.

A lei de Deus é sábia porque infere proporção às penas; não se pune alguém que cometeu um crime por engano com aquele que o realizou deliberadamente. Ainda que o mal tenha se realizado em ambas as situações, a pena do criminoso por negligência ou omissão não se equipara em gravidade ao criminoso por dolo, que desejou produzir o mal. Enquanto este pecou por eficiência, alcançando o seu objetivo inicial, aquele pecou por inépcia, sem que fosse o alvo da sua vontade. Um motorista que mata um transeunte por imperícia ou barbeiragem não está na mesma condição daquele que planeja uma armadilha, uma emboscada, e assassina deliberadamente outrem. Da mesma forma, um crime praticado contra um animal, ou uma propriedade, era reparado na proporção do bem, quando muito, acrescido de um valor extra como punição pela incúria. Se o crime era contra a vida alheia, se por omissão ou desleixo, a prisão era o castigo principal; se o atentado contra o outro era deliberado, maquinado, engendrado, a punição era com a própria vida do agressor.

Imagine então a transgressão contra Deus? O supremo Criador e Senhor de todas as coisas? Ao Deus eterno, infinito, perfeito e bom, quem pode pagar uma ofensa? Umazinha sequer? E quanto a várias e múltiplas transgressões? A punição eterna seria pouco para tamanho crime. Por isso, nenhum homem está habilitado a pagá-la; a sua condenação é por toda a eternidade. A sentença não pode ser outra. A lei, portanto, não veio para que o homem a cumpra, mas para que saiba da gravidade de seus pecados, e de como é incapaz de obedecê-la em toda a sua extensão, e de reparar, saciar a justiça divina, pagando uma dívida insolvível.

Nesse quadro de completa e total impossibilidade humana de autorrestauração, Deus, em sua infinita graça, propiciou-nos o resgate, a libertação das amarras malignas a aprisionar o seu povo, livrando-o do cativeiro do mal, tirando-o das trevas e introduzindo-o na luz do seu Filho Amado. Deus nos deu Cristo, ele sim o único capaz de cumprir a lei em sua integralidade, e dessa forma satisfazer a justiça divina.

A ideia de que Cristo veio anular a lei, não ecoa nas próprias palavras do Senhor:

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir.
Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido.
Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.
Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus. (Mt 5.17-20)



Ele veio cumprir a lei completamente, em sua totalidade, porque apenas o Justo e Santo o poderia fazer; apenas o Justo e Santo agradaria e satisfaria a justiça divina; apenas o Justo e Santo pagaria e anularia os pecados cometidos pelo seu povo; apenas o Justo e Santo poderia, pelo seu sacrifício, tomando o lugar daqueles que amou eternamente, tornar santos e imaculados os pecadores pelos quais morreu; apenas Cristo poderia, como mediador eterno, religar o homem ao Criador, fazendo-os aceitáveis diante de Deus. Por isso ele veio. Por isso, deveria cumprir toda a lei. Por isso, sofreria os rigores da lei. Por isso, fez para si um povo santo. Recebendo, na cruz, a ira divina. Por isso, ele pôde dizer, no Gólgota:

“Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. (Jo 19.30)


Quem mais poderia fazê-lo? Eu? Você? Impensável o homem cogitar-se no lugar de Cristo, como propiciador da sua redenção.

Quando outras religiões, inclusive algumas que se consideram “cristãs”, mas que de fato não têm nada a ver com a verdade, alegam que Cristo é um ser criado, um deus menor, ou apenas humano, uma alma iluminada, mas nada além disso, podemos entender em quão grandes trevas estão os seguidores dessas seitas, e quão incompreensivelmente a pessoa do Filho é. Não o conhecem. Supõem conhece-lo. Mas estão mesmo apegados ao delírio contínuo de crerem senhores de si, quando não passam de escravos do pecado, de um coração entregue à própria corrupção, distante do Senhor, e vivendo na ilusão, na mentira mais vergonhosa, da expectativa de uma autorredenção.

O pulo de fé capaz de jogá-los no mais profundo, escuro e insalubre abismo.


Nota: Dexei o texto sem uma "conclusão" com o propósito de fazê-la em outra oportunidade, já que temos aqui um esboço, e, diante do muito que ainda devo falar sobre o assunto, me pareceu precipitado "desferir" um ajuste definitivo.

15 outubro 2017

Moby Dick: Muito mais do que uma aventura



Jorge F. Isah

Em meio a outras leituras, ainda lendo "A Baleia. Estou na metade final do livro, mais ou menos o seu último quarto.

Muitos acham se tratar de um livro de aventuras, o que não é mentira; mas considera-lo apenas como tal é não compreender toda a trama intrincada e, muitas vezes trabalhosa, que é decifrar a escrita de Melville. Ela transcende em muito esta ideia. Há de tudo um pouco, metafísica, religião, psicologia, historia, biologia, ódio, vingança, amizade, e tudo o mais que faz um grande romance, e muitas descrições em detalhes minuciosíssimos. 

É um livraço; mas não é leitura para todos. Há momentos em que, não raro, se pensa em desistir ou pular trechos inteiros (como as descrições sobre a natureza dos cachalotes ou barcos). Muitas vezes percebi-me perguntando: por que o autor está dando essas descrições? E, um pouco mais adiante, compreender que era necessário, pois Melville queria que "víssimos" claramente tudo o que ele via, e não escapássemos ao seu realismo e à verdade da sua narrativa, entrando nela como um partícipe, não como um mero espectador ou leitor. De certa forma, o domínio e o conhecimento de cada particularidade da história, por menor que seja, conferi-lhe autoridade e factualidade, e nos faz cúmplices da narrativa. Não sei se foi esta exatamente a sua intenção, mas pareceu-me claro como objetivo, e parte do estilo a desenrolar-se nas centenas de páginas.

Certo é que abandonar livro tão precioso será um dissabor para o bom leitor, ainda que ele não o perceba, se optar pela interrupção. Neste caso, tem de se ter persistência e insistência, para alcançar a recompensa. E ela não tarda em chegar; e chegará, para deleite e satisfação daqueles que não querem apenas
uma aventura marítima, mas um mergulho na alma humana.

Dados Técnicos:
Título: Moby Dick
Autor: Hermann Melville
Editora: Landmark (Edição Bilíngue) 
No. de Páginas: 528

Sinopse da editora: 
"Moby Dick” foi escrito pelo escritor norte-americano Herman Melville e publicado originalmente em três fascículos com o título “A Baleia”, em Londres, em 1851, e ainda no mesmo ano em Nova York em edição integral. Somente a partir de sua segunda edição que ganha seu título definitivo, “Moby Dick”.
A obra foi inicialmente mal-recebida pela crítica literária, assim como pelo público, mas com o passar do tempo tornou-se uma das mais respeitadas obras da literatura em língua inglesa. Inspirado pelas experiências pessoais do autor e por outros acontecimentos que marcaram o período, Moby Dick representa, além de uma complexa narrativa de ação, uma profunda reflexão sobre o confronto entre o homem e a natureza, ou segundo alguns especialistas, entre o homem e o Criador, reforçada pela ‘universalidade’ dos tripulantes do navio “Pequod”, o que sugere uma representação da Humanidade. Obra de profundo simbolismo..."