13 junho 2016

O Suicidio do Homem Moderno



Jorge Fernandes Isah



Em um mundo no qual diariamente ouvimos falar de crimes, catástrofes, imoralidades e desprezo aos fundamentos mais caros à vida humana, perguntamo-nos, por quê, e de quem é a culpa?
Nos últimos séculos, tem-se difundido uma culpa coletiva por algo que o indivíduo pratica, como se todos aqueles que nunca cometeram algum crime tornassem-se responsáveis ou coautores daquele que o cometeu uma, duas ou mais vezes. Esta é uma maneira do homem esquivar-se da responsabilidade que cabe, exclusivamente, a si mesmo. Conceitos sociológicos, antropológicos e psicológicos, cada vez mais tiram do indivíduo a culpa por algo somente cometido por ele, e do qual é o único culpado, transferindo-o a um "ente" coletivo, a uma criação teórica, fruto apenas e tão somente da imaginação deficiente de quem a propõe. E essa não pode ser uma verdade, não pode ser comprovada pela realidade; mas há uma insistência quase psicótica em se designar um culpado sem culpa (pode ser a sociedade, o capitalismo, a igreja, etc) tirando-a do verdadeiro artífice, o indivíduo. 
O homem tem a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, e se opta pelo delito ou crime, qualquer que seja o seu motivo, ninguém o fez por ele, mas ele decidiu fazê-lo por si mesmo. A fraqueza, ignorância ou a coação não são argumentos para isentá-lo, quanto mais alegar uma indução coletiva sobre a pessoa, como se um ser metafísico simbolizasse a mente e a razão de multidões sobre uma única alma. Ninguém é obrigado a nada, ainda que forçado, ainda que sem aparente saída, pois sempre a recusa é uma opção em qualquer situação, e ninguém está autorizado a não aceitá-la como legítima. De forma que o objetivo central é a prevalência da inocência sobre a responsabilidade, sendo que alguém somente pode se considerar inocente quando usa o predicado de ser responsável; o leviano não pode apelar à ingenuidade por defesa. Não há ausência de culpa sem o exercício da sensatez; pelo contrário,  a ilicitude do ato praticado é que o torna em crime, e quem o realiza em condenado. Se até mesmo os animais sabem quando incorrem em um erro... A minha cadela quando apronta alguma traquinagem, ao ouvir os meus passos, coloca-se em uma posição submissa, na defensiva, preparando-se para receber uma repreensão, olhando-me como se estivesse se desculpando. Se até mesmo os débeis mentais têm noção dos seus erros e, muitos deles, têm sincero arrependimento por tê-los cometido, por que o homem saudável não o pode? 
Quanto ao impenitente, aquele que comete um crime com a cara mais limpa do mundo, o arrependimento não é uma palavra a se considerar em seu dicionário, mas ausente, porque é-lhe mais conveniente, inclusive em praticar livremente o desejo mais íntimo do seu coração: o mal como o anseio máximo da alma. Ele certamente dirá que fez e fará de novo, se a oportunidade surgir, e não tem de se arrepender por nada. O que o pensamento "humanista" diz-lhe é não haver motivos para arrependimento, pois a culpa não é dele, mas da sociedade, que em sua maioria desconhece-o, mas foi capaz de levá-lo, induzi-lo a cometer o pecado. A mensagem passada é a pior possível: indivíduos não são responsáveis por seus atos, mas sim um ente coletivo que sequer o desejava, e em nada colaborou para a sua prática.O humanismo moderno resume-se ao ódio ao homem e ao amor a uma ideia deficiente e postiça.

A própria noção de culpa encontra-se destituída de significado, pois ela repousa sobre um ente presumível, contudo, não tem uma mente, um corpo, ou alma a sintetizá-la, incorporá-la ou defini-la. Em uma sociedade, encontraremos indivíduos díspares, ainda que seja possível alguns ou muitos deles envolverem-se em projetos e grupos com objetivos comuns. A igreja, por exemplo, é um ajuntamento de crentes com o intuito de glorificar a Deus e realizar a obra que lhe foi dada a fazer. Ainda que retratada na Escritura como "Corpo", não se quer anuir com a exclusão das individualidades em prol de um coletivismo bovino, mas de que, cada indivíduo, motivado pelo Espírito e pensando de per si trabalhará e laborará para um intento comum. Nesse percurso, podem haver divergências, contrariedades, erros, confrontações, e uma série de eventos distintos a fortalecerem ou enfraquecerem o resultado final, implicando mesmo na saída de um ou outro daquele grupo específico de trabalho. E isso acontece exatamente por conta da individualidade e da responsabilidade assumida pessoal e única. 
Assim, cada vez mais é difícil encontrar na igreja pessoas comprometidas com a responsabilidade, seja dos seus líderes ou dos demais membros, negando, em, muitos casos, qualquer possibilidade de se aplicar a disciplina eclesiástica, como uma afronta ao indivíduo, já que ele se considera imune a qualquer sentido de organização, com o discurso enganoso de dever apenas satisfação a Deus, um Deus que ele não vê nem conhece ou obedece, a quem subjaz apenas como artifício para se manter em rebeldia e insubmissão à autoridade do "Corpo". Em sua mente, acredita possível viver nele estando amputado ou extirpado, como se uma mão conservada em um vidro de formol na prateleira de um museu de anatomia ainda estivesse ligada ao organismo original.
Segue-se também o não reconhecimento do conceito de "pecado" e "arrependimento", levando o homem inicialmente à estagnação e, posteriormente à degradação do seu ser e do próximo. Quando não se reconhece os erros, e sua existência passa a ser algo meramente relativa, sem um caráter absoluto, o homem não somente corrige-se a si mesmo, mas torna-se incapaz de aperfeiçoar-se, de aprender com suas falhas. Há pessoas convictas afirmando não se arrependerem de nada, pois o arrependimento não existe, ao que as interrogo, dizendo: como então você aprende? 
Na maioria das vezes elas dizem não se arrependerem, mas são as mais exigentes com os erros alheios, e as mais prontamente dispostas a cobrar uma retratação e uma punição por crimes muito menores do que o cometido por elas mesmas. O que vale para elas não vale igualmente para o próximo e vice-versa.Na mesma linha de pensamento e aplicação dos fariseus, elas, em sua hipocrisia, não conseguem perceber a incoerência de suas vidas, obstinadas em punir qualquer um que se levante contra o seu senso particular de justiça. O que se vê, com maior frequência, são pessoas com o seu senso privado de justiça impondo-a a outras sem que haja a contrapartida. Para ela e seu diminuto grupo, tudo; para os outros, nada. Se a ideia de democracia indica um governo da maioria sobre a minoria (uma minoria ainda que numericamente significativa), temos hoje a supremacia de um governo da minoria (esta significativamente diminuta) sobre a maioria, e ainda querem apregoá-la como a "verdadeira" democracia, quando, em seu bojo, constitui-se em autoritarismo ditatorial. Para isso, a supressão da verdade, a transgressão da linguagem e do seu sentido, a propagação da mentira, o discurso farsesco, e o fingimento, são implementados com ardis,  sutilezas, um apelo à piedade e ao bem-comum ignorados, ridicularizando a ordem para salvaguardar o caos. E o caos é benéfico para a manutenção ou a tomada do poder.
Ao contrário de toda a lenga-lenga modernosa de não culpabilidade do homem, a Bíblia afirma ser ele responsável por seus atos, e por eles será julgado. Quando a humanidade se considera a si mesma detentora da verdade, da sabedoria e da justiça, temos um mundo cada vez mais eivado na mentira, na estultice e na injustiça. A soberba levou-nos ao rompante de cogitarmos um mundo sem Deus, mas ainda mais, um coração onde Deus não pode habitar, pois é prescindível. A ideia da descartabilidade divina somente ganhou contornos de veracidade a partir do momento em que o homem considerou-se superior ao ponto de negá-lo, odiá-lo com todas as forças, e em um acesso tresloucado, considerou-se autossuficiente e autônomo, negando tanto a sua bondade como a sua santidade, de onde deriva a moral e justiça. Coincidentemente, foi a mesma pretensão de Satanás; em sua vaidade e orgulho, considerou-se "livre" de Deus, querendo usurpar-lhe o trono celeste e tomá-lo para si. Ele, ao menos, sabia o que desejava, enquanto o homem busca apenas satisfazer-se a si mesmo em sua natureza caída, sem almejar trono ou coroa, muitas vezes apenas chafurdar na lama como um porco.
Por isso a tradição judaico-cristã é vista como inimiga da humanidade, ao colocar freios e coibir a vazão dos instintos mais vis e sórdidos ansiados pela alma enferma e fraca do homem sem Deus. Acontece, contudo, não haver homens sem Deus, no sentindo do simples fato do homem não o reconhecê-lo e abandoná-lo significar não estar sujeito à sua autoridade e juízo. Esta é a  tolice máxima, pois eu posso, por exemplo, não acreditar na Lua como um satélite terrestre, e pensar ser uma miragem, fruto talvez de uma psicopatia coletiva e sugestiva infundida por um gene defeituoso a levar todas as pessoas a acreditarem na existência lunar. A verdade é: independente do que eu pense, a Lua continuará existindo, mesmo se a humanidade decidir, sabe-se lá por qual motivo, por sua inexistência.
Isto posto, não há como duvidar do lugar onde esse caminho, trilhado pelo homem moderno, descambará: injustiça, mortes, desolação e um poder ainda mais concentrado nas mãos de poucos a decidirem o destino de muitos. Parece-me que Satanás e seus servos estão ganhando a batalha, iniciada no Éden, contra o homem. Ao insuflá-lo à autonomia, a desordem interior, como consequência da rebelião, tornou-se evidente, e a motriz de uma existência desgraçada e permeada pela autodestruição, pelo aniquilamento do supremo bem, a solidificação da ofensa e das feridas a permear-lhe a alma, a abater a consciência, a afastá-lo da verdade. Enquanto tem a corda em volta do pescoço, espera paciente a árvore crescer para servir-lhe de forca. 
Ao afastar-se de Deus o homem entregou-se a si mesmo, como o pior dos inimigos com o qual se mantém uma amizade descuidada. Especialmente por considerar-se autossuficiente, quando não o é; bondoso, quando não o é; generoso e fraternal, quando não o é; ainda que manifestações gerais dessas virtudes se deem exclusivamente pelo "imago dei" existente no homem, mesmo no pior espécime. Se há resquícios de benignidade e de longanimidade no homem, existe somente pelo que ainda lhe resta de Deus no coração, e não pelo que é a partir da negação de Deus, mas pelo que ainda não pode ou não conseguiu rejeitar. 
 Até o dia em que a rejeição o levará à morte definitiva; a eterna separação de Deus. E cada um será justamente condenado por seu maior pecado. 


Nota: Este é apenas um esboço, de uma introdução, para um futuro estudo sobre a doutrina da depravação total do homem.