21 novembro 2017




Jorge F. Isah


Há algumas semanas, descobri "When Calls the Heart" no NetFlix, quase por acaso. Como não assisto TV aberta há uma década, mais ou menos, e a TV a cabo tem-se tornado insistentemente repetitiva e banal, vou direto à plataforma de Streaming em busca de alguma diversão, diga-se, nem tão frequente assim. Então, meio que "tropecei" na série.

Em princípio, ela me lembrou, já nos créditos iniciais, "Os Pioneiros", porque o produtor, idealizador e diretor é o filho do Michael Landon (O “Little Joe”, de Bonanza; e idealizador, produtor, diretor e ator principal de Os Pioneiros), além de uma série dos anos 1970 que marcou a minha adolescência, "Os Waltons". Mas a semelhança não para por aí. Não sei dizer se o Landon, pai, era cristão, muito menos se o Landon Jr. o é, mas a temática das histórias centra-se exatamente nos valores e princípios emanados do Cristianismo: fraternidade, amor, solidariedade, fidelidade, coragem, hombridade, etc. 

É claro que nenhuma série refletiria a realidade se não tivesse as suas porções de egoísmo, inveja, orgulho, ciúmes, cobiça, traição, e outros pecados comumente manifestados pelos homens. O diferencial é que nela não existe nenhuma exaltação dos erros, nem a contemporização com eles, antes são tratados como devidamente são: falhas, equívocos; há o chamado ao arrependimento, o estímulo às virtudes, e a uma vida permeada pelo favor divino (mesmo nas tragédias). Sim, você encontrará orações, pregações, diálogos e um sem número de referências a Deus e à Bíblia. É pouco? Para mim, não é de se desprezar. 

Bem, não farei uma resenha da série, nem entrarei em seus pormenores, porque o meu objetivo é indica-la para os desconhecidos que, como eu, talvez viessem a conhecê-la por um “acaso”, fortuitamente. Sei que muitos torcerão os narizes, pela simplicidade da narrativa e dos personagens, mas exatamente por isso, por serem comuns mortais, gente como a maioria de nós, está o seu encanto, quando nos vemos em muitas das situações narradas, criando uma empatia, até mesmo pela nostalgia de tempos vividos, e que estão muito distante das misérias que cercam as relações pessoais em nossos dias.  Para mim, tem sido um “oásis” em meio às programações e noticiários hodiernos, a toda a psicopatia reinante nas várias mídias.

Gostaria, sinceramente, que houvessem mais “Landons” na televisão e no cinema, e que as pessoas não se entregassem às distrações que as conservam em um quase estado de paralelismo existencial.

É o olhar do mundo imperfeito, mas descansando na esperança de que, Aquele que é perfeito, o transformará e o restaurará.


Nota: A série pode ser assistida no NetFlix, que já teve quatro temporadas concluídas. A quinta temporada será lançada em breve. É uma produção do estúdio Hallmark Movies, pródigo em fornecer ficção baseada em livros autobiográficos, e que estão completamente "fora da curva" do que o cinema e tv andam realizando atualmente, com raras e providenciais exceções. 

02 novembro 2017

Apenas o amor eterno de Cristo pode absolver a inimizade eterna do homem





Jorge F. Isah



Introdução


Este é um trecho pinçado de um estudo e meditação no verso de Romanos 13.10, e que já suscitou três pregações, duas já publicadas, e uma ainda a ser publicada aqui, no Kálamos (entre outras postagens que farei sobre o tema), o qual é o seguinte:

"O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor."

No trecho abaixo, abordarei a questão da impossibilidade do homem cumprir a lei, e da necessidade do Salvador divino-homem, Jesus Cristo. É claro que esta abordagem não é exaustiva, nem tem pretensão de sê-la; é muito mais uma apresentação do tema, e da análise de que o Justo, Santo e Salvador teria de ser poderoso, infinito e eterno, algo que está muito além, e aquém, da condição humana em sua finitude e corrupção.

Espero, se assim Deus o quiser, em breve, tecer e aprofundar-me mais no assunto, aparando as muitas arestas, sem que vá criar outras, é o que tenciono. Oro, para Deus me abençoar, e ao leitor, que antes de se debruçar sobre este texto, reconheça que o meu único objetivo é ser fiel à verdade, Cristo, o qual quero, acima de tudo, glorificar e honrar, como prova da minha mais profunda gratidão, por quem ele é, fez, e, sobretudo, pelo amor com que me amou eternamente.

Soli Deo Gloria!!


Cristo e a Lei

Alguns cristãos reputam a lei como maléfica, como um entrave à santificação e à comunhão com Deus. Tendo em vista o seu caráter obrigatório, uma exigência, entendem ser isso danoso para a vida espiritual do homem. A premissa é, muitas vezes, a de que: se não se é capaz de cumpri-la totalmente, não se deve preocupar em cumpri-la em qualquer de seus preceitos. Ora, essa não é outra senão a heresia do antinominialismo, que defende a vida cristã sem qualquer lei, apelando para a graça absoluta. É claro que a graça é absoluta, pois procede do Deus absoluto, mas estaria o homem dispensado de cumprir a Lei por um mero capricho da graça? Ou seria a graça o fomentador do cumprimento da Lei, de maneira que o homem se aprimoraria no desejo íntimo e sincero de obediência a Deus e à sua vontade? Estaria a Lei alijada da graça e vice-versa? Ou ambas seriam manifestações divinas unidas por sua vontade sobrenatural de nos fazer semelhantes a Cristo? Homens imperfeitos sendo cada vez mais identificados com o Senhor que os salvou, chamou, transformou e santificou? A salvação prescinde o zelo? E a eleição a obediência? Penso, categoricamente, que não!

A alegação de quem defende uma posição de antinomia é de que cumprir a Lei seria farisaísmo, hipocrisia, e uma atitude legalista, manifestações pecaminosas daquele que não tem a graça sobre a sua vida. Acreditam que a graça se manifesta cada vez mais onde o pecado abunda. Tomam de Paulo uma afirmação e lhe dão outro sentido, distorcendo-o, tornando em mentira a verdade, em engano a fidelidade, em morte a vida.

“Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça;
Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 5.20-21)

Este trecho não sanciona o pecado, muito menos o estimula ou anula, como se o homem, debaixo da graça, pudesse abusar dela, tornando-a em desgraça. O apóstolo não está dizendo que quanto mais se peca, mais a graça se manifesta, mas que Deus, em seu amor e bondade infinitos, não levou em questão a multidão de pecados do seu povo, derramando sobre a propiciação dos pecados, ou seja, o sangue de Cristo derramado na cruz nos livra da condenação e separação eterna de Deus. Não é um salvo-conduto para o pecado. Nem o tratar com desprezo ou trivialidade. Muito menos uma forma de incentivo ou ânimo. Paulo está a dizer que onde haveria condenação e punição, Deus nos entregou a sua absolvição. Sendo todo o pecado uma ofensa direta a ele, somente o Senhor poderia nos perdoar e absolver. O duro e feroz julgamento ao qual fazíamos jus, recaiu sobre o seu Filho. Alguém teve de pagar a pena, e não fomos nós. Porque nos era impossível quitá-la. Apenas o Deus-Homem, 100% Deus e 100% Homem poderia realiza-lo; ninguém mais.

Quando Adão cai, todos nós caímos. O pecado nos foi transmitido como por uma doença altamente contagiosa, da qual ninguém a não ser o Santo estava imune. Sim, ainda que fosse uma possibilidade, a de que Cristo pudesse pecar, não havia potencialidade nele para a transgressão, para a rebeldia. Pelo contrário, como ele mesmo disse, viera ao mundo para fazer a completa vontade do Pai, cumprindo toda a Lei, e padecendo como um inocente.

Naquela cruz, o Santo, imaculado, sofreu o castigo que nos pertencia, do qual não poderíamos nos livrar, se o esforço empreendido fosse nosso. Por mais empenho e disposição no sentido de obediência à lei divina, ela estava a nos acusar a todo momento, espetando-nos com sua ponta dura e letal, desferindo golpes mortais na carne e na alma, fazendo-nos definhar pouco a pouco ao seu castigo, à sua implacável justiça.

Com isto, não estou dizendo que a Lei é pérfida ou injusta, mas de que ela, sobretudo, aponta-nos a condição de perdidos, afastados, inimigos de Deus, quando a transgredimos, quando insidiosamente tentamos burlá-la, negligenciá-la, desafiá-la, desrespeitá-la. Assim fez Adão. O homem que deveria cuidar da mulher, de toda a criação, como mordomo instituído por Deus, sucumbiu aos apelos néscios de Eva. Da serpente. Não foi a Lei a instiga-lo, mas a cobiça. Não o preceito a inflamá-lo, mas a soberba e a vaidade. A santidade já não era possível ao coração inclinado à desobediência. A pureza não mais o dominava; a fleuma da concupiscência tomava-lhe o lugar. Nem toda a profusão de bênção e favores dados por Deus seriam capazes de impedir o ingrato de desprezá-lo. Adão olhava o fruto. Apetecia-lhe o fruto. Desejava-o. Não resistiu a tocá-lo. Nem o comer. O cravar-lhe os dentes foi apenas o ponto final de uma longa trajetória de declínio e morte. Não foi o início, mas o desfecho final da tentação, da rebeldia presente nos primórdios do seu desejo.

Adão pouco a pouco se convenceu de que a realidade apresentada por Deus era falsa, mentirosa, e de que a ilusão proposta pela serpente era factível e verdadeira. Não sabemos quanto tempo durou o convencimento para a queda. Segundos, minutos, horas. Talvez dias. O certo é que quanto mais se deixava enredar pela fraude, mais ela se solidificava em seu coração. O pecado se agigantou, tomou-lhe a vida, e não mais era possível resistir, a partir de certo ponto. Adão poderia manter-se fiel a Deus com uma simples recusa: bastaria expor a serpente ao ridículo, lançar-lhe em rosto a sua desfaçatez e ignomínia. Como ele poderia se deixar enredar por alguém de quem pouco ou nada conhecia?

Ao contrário, Deus já havia lhe provado quem era, não poderia existir dúvidas de quem era; os seus feitos, a sua bondade, o seu cuidado, misericórdia e providência falavam por si. Era clara e nítida a boa vontade divina para com o casal; entretanto, negaram ouvir a sua voz, dando trela à serpente (deixando-se enganar) que se viu estimulada a permanecer firme no intuito de destruí-los.

Não é assim que procedemos, negando ouvir a voz de Deus, em favor do nosso eu ou de outro eu? Em disposição, ainda que sincera, de sermos ludibriados? De não reconhecer aquele que é o doador de todas as coisas, que age com infinita misericórdia, para entregar-nos a nós mesmos ao ladrão de corações? O inimigo odioso de almas? Ah, quão triste será para aqueles que se entregaram ao grito estridente de morte do diabo; passar a eternidade em tormento e castigo indescritível com o algoz. Não satisfeito em aniquilar-se, arrogante e presunçoso, arrasta consigo multidões de tolos que se entregam às suas artimanhas. Vê-lo sendo castigo poderá trazer algum alívio, mas não impedirá aqueles que o seguem de compartilhar da sua dor. Não importa em que nível, o flagelo de satanás e seus anjos será o mesmo do homem reprovado. Se o sangue de Cristo não o alcançar, a vara imperdoável de justiça do Pai o flagelará. Apenas o Filho pode livrá-lo da tormenta no inferno; e bom seria se cada um dos homens se apercebesse disso o mais rapidamente possível. Mas sabemos que o coração indolente e obstinado somente poderá reconhecer-se como tal se quebrantando, se esmagado pelo amor de Cristo, o qual nos constrange. A dureza e impertinência da morte tem de ser esmigalhada, pulverizada, pela graça, a fim de que um coração de carne viva.

Se Cristo não o encontrar, o homem jamais será achado. E se perderá definitivamente na própria multidão de pecados. Enquanto as transgressões o sufocam, o imobilizam em correntes de contenção, o desespero antecede a dor, enquanto o verdugo se aproxima, e não lhe restará nada além de lamentar amargamente, ou praguejar estupidamente, pela derrota que tão desleixadamente acalentou, cultivou, em meio aos alertas insistentes da palavra, e à exortação para reconciliar-se, abandonando os caminhos erradios, a fim de seguir os passos de Jesus.

Enquanto Adão for o protótipo do homem, a voz da serpente estará sempre a soar em seus ouvidos, como o sibilar da mais terrível desgraça. E mesmo quando for picado fatalmente, acreditará ouvir o som matinal dos pássaros, como se o despertassem para a vida, quando ela é uma lembrança antiga dos tempos em que o homem vivia no paraíso; mas em sua confusão, desnorteado, era incapaz de retomar o caminho. O único guia e mestre foi desprezado; o cego a acurar os ouvidos ao chamado próprio, ou ao apelo de outro perdido.


O Cumprimento da Lei

Como disse, era impossível ao homem cumprir a lei. A própria condição humana, desde o nascimento, já a torna impeditiva e impossível de ser cumprida. Nascido em pecado, tornado desde o ventre um transgressor natural [em sua natureza o homem já dispõe desta característica, estando inviolável para o bem e a santidade por si mesmo, uma vez que carrega no seu âmago a marca do pecado herdada de Adão], mesmo sem ainda ter praticado, levar a efeito ou colocar em prática o pecado, a semente está ali, germinando, desenvolvendo-se, a fim de dar os seus frutos, no tempo devido.

A ideia de que o homem pode, em algum sentido, cumprir a lei é uma fanfarrice de quem a defende. A lei não veio salvar ninguém, nem lhe dar alguma condição de autossalvação. Pelo contrário, ela vem nos acusar, nos molestar, revelando a completa e total incapacidade de ser cumprida por pecadores. Sim, o pecador não pode cumprir a lei, ainda que o faça extemporaneamente, ainda que a obedeça parcialmente, ainda que se esforce para manter-se dentro da lei, o fato é que, para os homens naturais, essa é uma empreitada impossível. Não é o que Paulo nos diz? Ou estaremos indo por algum eflúvio ilusório e condescendente ao afirmar algo que nega por completo o testemunho bíblico? Senão, vejamos a afirmação do apóstolo:

“Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus.
Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.” (Rm 3.19-20)


Não há como ser mais claro! Os versos nos remetem à incapacidade humana de se auto justificar diante de Deus, pois é ele quem nos justifica, e com a sua perfeita justiça nos faz justos diante dele. Evidente que aqueles que são alcançados por ela desejarão ardentemente cumprir toda a lei. Querem, no mais íntimo do seu coração, fazê-lo por gratidão, por amor, porque Deus em sua infinita bondade e misericórdia não levou em conta as transgressões e ignorância do seu povo, mas decidiu salvá-lo. Não somente para si, mas dele mesmo. Cada um de nós, eleito do Senhor, foi salvo da própria condição de inimigo, de miserável, e cego, e nu, para reencontrar-se com o Senhor, ter comunhão eterna com ele, e deliciar-se plenamente nele.

Paulo não revela qualquer possibilidade do homem cumprir a lei. É algo impossível! A lei veio apenas para revelar, deixar patente a pecaminosidade do homem. É como um espelho invertido a refletir aquilo que não somos, não alcançamos, nem realizamos por nosso esforço próprio. Nenhuma carne pode ser justificada diante de Deus pelas obras da lei, mas é pela justificação graciosa de Deus que somos capazes de realizar essas obras. É pelo sacrifício de Cristo, o qual nos justificou, imputando-nos a sua justiça, que ardentemente desejamos cumprir a lei; ainda que caíamos vez ou outra em seu rigor e impraticabilidade por causa de haver, por ora, em nós, a possibilidade do pecado, dele ainda se insurgir, em seus últimos estertores, querendo reavivar o velho homem, e dominá-lo. Contudo, ela nos remete ao que seremos, quando não mais houver a chance de pecarmos; seremos santos como santo é o nosso Senhor, e então a lei, aquela escrita no coração de Adão antes da queda, será completamente escrita em nossos corações, e não mais o mal nos tocará, nem os desejos impuros nos insuflarão, nem a fraqueza nos tomará, nem a queda nos levará ao chão. Haverá em cada eleito apenas a santidade plena, a obediência completa, o louvor perfeito, a a gratidão absoluta ao Deus que, graciosa e benignamente, nos imputou. Entretanto, neste tempo, ainda convivemos com o pecado, com a maldita marca herdada de Adão, e a lei apenas nos faz lembrar aquilo que ainda somos, e o quanto ainda ofendemos a Deus quando deixamos que ela nos conquiste, domine, e realize em nós a sua vontade mortal.

Assim, nenhum homem pode cumprir a lei, nem mesmo aqueles bebês que morreram antes de cometer qualquer pecado, pois mantém-se pecadores. A semente do Éden está inserida em suas almas de uma maneira tão destrutiva que a morte lhes aprisiona ainda no nascedouro. E essa é a prova de que, nem mesmo eles são santos, ou têm justiça própria, mas carecem da santificação e justificação de Cristo.

Da mesma forma que uma oliveira é uma oliveira, ainda que não tenha dado frutos, o homem é naturalmente pecador mesmo que ainda não tenha cometido uma única transgressão. Se em Cristo existe a possibilidade de pecado, por causa da sua natureza humana, mas não há, de fato, a potencialidade para o mal e a transgressão, em nós tanto se encontra a possibilidade como a potencialidade e, no fim das contas, será apenas questão de tempo para o pecado se manifestar efetivamente, nos atos e atitudes de rebelião e ofensa a Deus e sua lei. Porque a essência humana é o pecado, assim como a de Cristo é a santidade.

Então, apesar da lei ser um norte, um orientador para o homem não ofender a Deus, não pecar contra o próximo e contra si mesmo, ainda que se possa cumprir um ou vários de seus preceitos, não nos é permitido cumpri-los integralmente, a fim de a lei não ser violada, e a justiça satisfeita. É o que nos diz Tiago:

“Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos.
Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não matarás. Se tu pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei" (Tg 2.10-11).


O condenado, para ser liberto, tem de cumprir toda a pena; no caso da ofensa a Deus ela é impagável, pois sendo Deus eterno e infinito, a ofensa atinge-lhe em sua eternidade e infinitude. O pecador gastaria o “sempre” e jamais quitaria a sua dívida. Seria eternamente devedor da ofensa. Ao nascermos com o pecado original, separados de Deus, a lei maior, aquela que nos coloca em comunhão e sujeição ao Criador, foi quebrada, transgredida, pela desobediência e inimizade, não restando ao homem nada além de se lamentar, chorar, e clamar por misericórdia. Porque o pecado é o muro intransponível que impede o homem de ter comunhão com Deus, uma barreira erguida no seu coração, onde o desejo perverso e corrompido tomou-lhe de assalto o lugar onde deveria habitar a gratidão e o louvor ao Criador. Logo, a inimizade eterna somente poderia ser quebrada, absolvida, pelo ofendido, que em sua natureza eterna livraria o homem das consequências perenes de sua transgressão. Ou seja, apenas Deus pode tirar o homem dessa condição; e se ele não o fizer, ninguém mais pode. Por isso, Satanás, ainda que se arrependesse amargamente pelos seus pecados, ainda que derramasse todas as possíveis lágrimas que tivesse, ainda que ficasse de joelhos por todo o restante da sua existência, ainda que se flagelasse diuturnamente, ainda que fizesse todo o bem de que é incapaz de fazer, ele jamais pagaria o preço da sua rebeldia. Não há como criaturas temporais quitarem uma dívida com o ser supremo e eterno. Apenas se deve esperar o perdão, clamar por ele, e aguardar que a justiça divina seja satisfeita.

A lei de Deus é sábia porque infere proporção às penas; não se pune alguém que cometeu um crime por engano com aquele que o realizou deliberadamente. Ainda que o mal tenha se realizado em ambas as situações, a pena do criminoso por negligência ou omissão não se equipara em gravidade ao criminoso por dolo, que desejou produzir o mal. Enquanto este pecou por eficiência, alcançando o seu objetivo inicial, aquele pecou por inépcia, sem que fosse o alvo da sua vontade. Um motorista que mata um transeunte por imperícia ou barbeiragem não está na mesma condição daquele que planeja uma armadilha, uma emboscada, e assassina deliberadamente outrem. Da mesma forma, um crime praticado contra um animal, ou uma propriedade, era reparado na proporção do bem, quando muito, acrescido de um valor extra como punição pela incúria. Se o crime era contra a vida alheia, se por omissão ou desleixo, a prisão era o castigo principal; se o atentado contra o outro era deliberado, maquinado, engendrado, a punição era com a própria vida do agressor.

Imagine então a transgressão contra Deus? O supremo Criador e Senhor de todas as coisas? Ao Deus eterno, infinito, perfeito e bom, quem pode pagar uma ofensa? Umazinha sequer? E quanto a várias e múltiplas transgressões? A punição eterna seria pouco para tamanho crime. Por isso, nenhum homem está habilitado a pagá-la; a sua condenação é por toda a eternidade. A sentença não pode ser outra. A lei, portanto, não veio para que o homem a cumpra, mas para que saiba da gravidade de seus pecados, e de como é incapaz de obedecê-la em toda a sua extensão, e de reparar, saciar a justiça divina, pagando uma dívida insolvível.

Nesse quadro de completa e total impossibilidade humana de autorrestauração, Deus, em sua infinita graça, propiciou-nos o resgate, a libertação das amarras malignas a aprisionar o seu povo, livrando-o do cativeiro do mal, tirando-o das trevas e introduzindo-o na luz do seu Filho Amado. Deus nos deu Cristo, ele sim o único capaz de cumprir a lei em sua integralidade, e dessa forma satisfazer a justiça divina.

A ideia de que Cristo veio anular a lei, não ecoa nas próprias palavras do Senhor:

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir.
Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido.
Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.
Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus. (Mt 5.17-20)



Ele veio cumprir a lei completamente, em sua totalidade, porque apenas o Justo e Santo o poderia fazer; apenas o Justo e Santo agradaria e satisfaria a justiça divina; apenas o Justo e Santo pagaria e anularia os pecados cometidos pelo seu povo; apenas o Justo e Santo poderia, pelo seu sacrifício, tomando o lugar daqueles que amou eternamente, tornar santos e imaculados os pecadores pelos quais morreu; apenas Cristo poderia, como mediador eterno, religar o homem ao Criador, fazendo-os aceitáveis diante de Deus. Por isso ele veio. Por isso, deveria cumprir toda a lei. Por isso, sofreria os rigores da lei. Por isso, fez para si um povo santo. Recebendo, na cruz, a ira divina. Por isso, ele pôde dizer, no Gólgota:

“Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. (Jo 19.30)


Quem mais poderia fazê-lo? Eu? Você? Impensável o homem cogitar-se no lugar de Cristo, como propiciador da sua redenção.

Quando outras religiões, inclusive algumas que se consideram “cristãs”, mas que de fato não têm nada a ver com a verdade, alegam que Cristo é um ser criado, um deus menor, ou apenas humano, uma alma iluminada, mas nada além disso, podemos entender em quão grandes trevas estão os seguidores dessas seitas, e quão incompreensivelmente a pessoa do Filho é. Não o conhecem. Supõem conhece-lo. Mas estão mesmo apegados ao delírio contínuo de crerem senhores de si, quando não passam de escravos do pecado, de um coração entregue à própria corrupção, distante do Senhor, e vivendo na ilusão, na mentira mais vergonhosa, da expectativa de uma autorredenção.

O pulo de fé capaz de jogá-los no mais profundo, escuro e insalubre abismo.


Nota: Dexei o texto sem uma "conclusão" com o propósito de fazê-la em outra oportunidade, já que temos aqui um esboço, e, diante do muito que ainda devo falar sobre o assunto, me pareceu precipitado "desferir" um ajuste definitivo.

15 outubro 2017

Moby Dick: Muito mais do que uma aventura



Jorge F. Isah

Em meio a outras leituras, ainda lendo "A Baleia. Estou na metade final do livro, mais ou menos o seu último quarto.

Muitos acham se tratar de um livro de aventuras, o que não é mentira; mas considera-lo apenas como tal é não compreender toda a trama intrincada e, muitas vezes trabalhosa, que é decifrar a escrita de Melville. Ela transcende em muito esta ideia. Há de tudo um pouco, metafísica, religião, psicologia, historia, biologia, ódio, vingança, amizade, e tudo o mais que faz um grande romance, e muitas descrições em detalhes minuciosíssimos. 

É um livraço; mas não é leitura para todos. Há momentos em que, não raro, se pensa em desistir ou pular trechos inteiros (como as descrições sobre a natureza dos cachalotes ou barcos). Muitas vezes percebi-me perguntando: por que o autor está dando essas descrições? E, um pouco mais adiante, compreender que era necessário, pois Melville queria que "víssimos" claramente tudo o que ele via, e não escapássemos ao seu realismo e à verdade da sua narrativa, entrando nela como um partícipe, não como um mero espectador ou leitor. De certa forma, o domínio e o conhecimento de cada particularidade da história, por menor que seja, conferi-lhe autoridade e factualidade, e nos faz cúmplices da narrativa. Não sei se foi esta exatamente a sua intenção, mas pareceu-me claro como objetivo, e parte do estilo a desenrolar-se nas centenas de páginas.

Certo é que abandonar livro tão precioso será um dissabor para o bom leitor, ainda que ele não o perceba, se optar pela interrupção. Neste caso, tem de se ter persistência e insistência, para alcançar a recompensa. E ela não tarda em chegar; e chegará, para deleite e satisfação daqueles que não querem apenas
uma aventura marítima, mas um mergulho na alma humana.

Dados Técnicos:
Título: Moby Dick
Autor: Hermann Melville
Editora: Landmark (Edição Bilíngue) 
No. de Páginas: 528

Sinopse da editora: 
"Moby Dick” foi escrito pelo escritor norte-americano Herman Melville e publicado originalmente em três fascículos com o título “A Baleia”, em Londres, em 1851, e ainda no mesmo ano em Nova York em edição integral. Somente a partir de sua segunda edição que ganha seu título definitivo, “Moby Dick”.
A obra foi inicialmente mal-recebida pela crítica literária, assim como pelo público, mas com o passar do tempo tornou-se uma das mais respeitadas obras da literatura em língua inglesa. Inspirado pelas experiências pessoais do autor e por outros acontecimentos que marcaram o período, Moby Dick representa, além de uma complexa narrativa de ação, uma profunda reflexão sobre o confronto entre o homem e a natureza, ou segundo alguns especialistas, entre o homem e o Criador, reforçada pela ‘universalidade’ dos tripulantes do navio “Pequod”, o que sugere uma representação da Humanidade. Obra de profundo simbolismo..."

12 setembro 2017

Cristo: o Verbo comunicando-nos com Deus




Jorge F. Isah


Paulo já alertava para aqueles que aprendem sempre, mas nunca chegam ao conhecimento da verdade (2Tm 3.7). Se esforçam, mas são incapazes de reconhecer o erro, e insuflados pelo orgulho, persistem tenazmente em transitar pelos caminhos de morte. O apóstolo chega a dizer que eles têm aparência de piedade, mas negam-a com as suas ações (2Tm 3.5). Têm uma palavra açucarada, parecem se preocupar com as pessoas e suas necessidades, acolhem-nas como protetores, zelosos tutores, amigos fraternos, entretanto, utilizam-se destes artifícios para o engano, a corrupção, e a destruição de suas vidas. Querem afastá-las do Deus verdadeiro, impedindo-as de ouvir a verdade, enlaçando-as em suas teias, atando-as em seus palavratórios, tirando-as da consciência de que Deus somente pode ser encontrado em seu Filho, e revelado pela sua palavra. 

Não é interessante como João se refere a Cristo como o Logos? A Palavra? O Verbo? De que apenas ele pode comunicar o Pai? E de que aprouve ao Pai fazer-se ver no Filho? A nós que tivemos os ouvidos silenciados pelo pecado? E as vistas escurecidas pelas transgressões? Cristo é quem faz Deus ser inteligível a nós, quando estávamos perdidos em um labirinto de truques, baratinados pelos enganos a nos rodear, seduzidos pelos desejos ilusórios, na barafunda caótica que ele veio desfazer. Pelo seu poder e graça, somos retirados do dédalo para a ordem; das trevas para a luz; de nós mesmos para sermos como ele; abandonando a vida estéril para uma vida frutífera; aniquilando o eu corrompido para existir nele em santidade (Gl 2.20).

Nota: Fragmento de um texto sobre a dupla natureza de Cristo.  


01 setembro 2017

Jó: O livro das belezas





Jorge F. Isah




Este foi um livro surpreendente! Dos melhores que li ultimamente. 

Indicação sempre bem-vinda do professor e crítico Rodrigo Gurgel. 

Um aviso: muitos que não leram o livro poderão achar confusa a minha resenha; e o objetivo é esse mesmo, não tirar do leitor o desejo de ler o livro, entregando-lhe um resumo ou pistas muito claras do que encontrará. Contudo, se você o leu, ou reler a resenha após lê-lo, entenderá melhor os pontos que ressaltarei a seguir. 

Vamos a eles, então. 

O título do livro remete ao personagem histórico/bíblico Jó, um homem poderoso, rico, e justo diante de Deus, o qual perdeu tudo, de uma hora para outra, e passou a viver na indigência e na enfermidade, sendo abandonado até pela esposa, tendo por companhia alguns amigos a questionarem a sua fé e moral, por conta dos seus infortúnios. 

Mendel Singer, um homem comum, piedoso e temente a Deus, mora em Zuchnow, com a esposa e quatro filhos, levando uma vida simples, na qual é um professor da Bíblia para crianças. Esta é a principal fonte de renda da família. Ele não é um homem de muitas alegrias, mas uma tristeza o aflige sobremodo e à sua esposa, o filho caçula Menuhim, uma criança débil de nascença, e pela qual eles oram, incessantes a Deus, por cura. 

Alguém disse que ao contrário do verdadeiro Jó, Mendel não manteve a sua fé e esperança, em meio as vicissitudes. Não penso assim. Mas antes, sem contar propriamente a história, para não tirar a curiosidade e o gosto dos futuros leitores, faz-se necessário dizer que, em dado momento, ele e sua família se veem obrigados a ir para a América, lugar onde um dos filhos se estabeleceu e prosperou, fugindo do recrutamento do exército russo. Lá, ele é conhecido como Sam, ao invés de ser o Schemarian da terra natal. Uma alusão à perda da identidade ou o esquecimento de quem se é. 

O motivo da viagem está diretamente relacionado com a filha Miriam, mas não o citarei. Um detalhe importante é o fato de dois dos seus filhos não viajarem. Novamente, não darei os motivos; mas há aqui, também, um simbolismo, a perda de elementos de identidade, de coisas que eles são obrigados a deixar para trás, numa fuga dolorosa a impossibilitá-los de estarem por inteiro; e para aonde vão estarão sempre fracionados, incompletos. Nunca serão os mesmos, enquanto as partes separadas não se unirem novamente. 

Na América, em uma cultura completamente diferente (uma referência a um exílio, uma diáspora para os Singer), Mendel mantém os seus hábitos judeus, suas orações e rituais, que o faz permanecer sendo quem é, ao menos como uma tentativa, mesmo não estando onde deveria estar; mas sempre com um desejo íntimo, indolente, de voltar à sua terra, à vida e ao lugar dos quais não consegue se separar, nem pode escapar. 

Porém, tudo muda em uma sucessão de tragédias a aflorarem em sua vida, tal qual o personagem bíblico. Ele, então, rejeita a sua fé e a crença em Deus, e mesmo admoestado pelos amigos, recusa-se a voltar a ela. É a obstinação do homem em lutar contra Deus, contra a realidade, uma tentativa impossível de, pela rebeldia, encontrar-se consigo, com o homem perdido, e desconhecido; de encontrá-lo em um esconderijo, de onde nada se sabe, nem o lugar, nem como alcançá-lo. Negar-se a si mesmo passou a ser a maneira de Mendel conviver com a dor; negar a Deus o afastaria do seu passado; negar a esperança o distanciaria do seu futuro. Mendel era o homem fora do tempo, a vagar como um espectro pelas ruas de Nova York, como uma caixa pesada imóvel, na qual todos tropeçam.

De alguma maneira, havia uma esperança oculta no sofrimento, e ela o chamava pelo que ainda poderia reencontrar, a identidade perdida no abandono da fé e na ausência de elementos que o fizeram, até então, ser quem era Mendel Singer, agora eram ansiados como uma última chance de se reencontrar, de mitigar o novo homem nos lombos do velho homem, e vislumbrar alguma alegria, ou a resignação dolorosa do sofrimento, caso tudo estivesse realmente perdido. 

Entretanto, há milagres; e Mendel vivencia-os. Algo inimaginável, em meio às seus sofrimentos, acontece, como se Deus finalmente olhasse para aquele homem miserável, e triste, e amargurado, lançando uma intensa onda de favores. Há a restauração da alma de Mendel, há a esperança, novos dias, um futuro no qual Deus o conduziu à reparação, o mesmo que levou Jó a receber tudo o que perdera em dobro e muito melhor. 

Cenas emocionantes acontecem quando ele ouve, em um disco, a "Canção a Menuhim", e o encontro com o seu passado, porém tornado em um futuro esplendoroso. Mendel renasce; e não lhe é reserva apenas a morte, o abandono, a personalidade soterrada no dissabor, mas o alvissareiro frescor da felicidade, do reencontro consigo mesmo, do homem perdido em si, mas encontrado no milagre, no sobrenatural, na vida transformada e abundante, em proporções muito maiores ao que sentira, mesmo na existência aparentemente completa do velho homem. 

Mendel nunca será o mesmo; aquele homem foi aperfeiçoado pelo sofrimento, restando agora o homem completo, como jamais pode imaginar ser. Assim é retratado pela última frase: 
"E descansou do peso da fortuna e da grandeza do milagre".

Um livro onde nada, nem mesmo as mazelas e o sofrimento, tira-lhe a beleza.

Dados Técnicos: 
Título: Jó - Romance de um homem simples
Autor: Joseph Roth
Editora: Cia das Letras
No. Páginas: 200

23 agosto 2017

Sermão em Romanos 13.10; "O amor é o cumprimento da lei" - 2a. Parte




Jorge F. Isah







INTRODUÇÃO

Na meditação anterior, observamos que Deus é a origem de todo o amor, e de que este é um atributo comunicável com o homem. Ou seja, somos capacitados por ele a amar. Pelo amor com que nos ama, e do qual somos objetos, somos capazes de amar. Na verdade, o homem é o receptáculo do amor divino; o mesmo amor com o qual Deus nos criou. 

“Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.
Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.” [1 Jo 4.7-8]


Entretanto, com a queda de Adão no Éden, e a consequente contaminação do pecado, o sentido do amor divino foi corrompido e afetado. De forma que o homem não somente afastou-se do amor [o distanciamento natural, tendo em vista a sua natureza antinatural], mas o negou, implantando em seu lugar o ódio e o mal, a antítese do amor. Tudo isso como manifestação de desamor e rejeição a Deus. 

Ora, se rejeito algo divino, e o amor é divino, rejeito o próprio Deus, e é esta rejeição que leva o homem a anelar o ódio e o mal; a confrontação e oposição a Deus pelo que ele é, resultando no pecado como única forma de refletir a insurreição contra o Criador. 

O bem que o homem negou, foi ocupado naturalmente pelo seu oposto: o mal; o amor igualmente negado foi ocupado pelo ódio; a santidade pelo pecado. Deus por um ídolo ou ídolos. E a marca de todas essas “ocupações” não é outra senão o afastamento de Deus; movimentos com o fim de expurga-lo, negá-lo, em um sentimento de aversão profunda, o estado de demência em que se reputa capaz destruí-lo. Como não é capaz, o homem trata de construir em si mesmo a figura diabólica, pela ausência do bem e a superabundância do mal. 

No frigir dos ovos, a contribuição humana foi apenas o pecado, o qual não criou originalmente, já que essa obra é proveniente, primeiramente, do Diabo, mas o homem a adequou aos seus interesses, e criou uma variação, digamos, não tão singular como a empreendida nos Céus, mas uma cópia cujos efeitos são igualmente drásticos, terríveis e maléficos. 

Alguém pode dizer que o meu pensamento é dualista, de que não existe, na vida real, essa dicotomia e franca oposição entre o bem e o mal. O homem é capaz de manifestar tanto uma como outra coisa. E até mesmo as variações delas em algum momento. Pois bem, ele não está errado, ainda que não esteja certo. Na verdade, o homem, ao afastar-se de Deus e entregar-se a si mesmo, contaminou todo o seu ser com o pecado, que o atinge de várias formas e maneiras. Temos então as variações do mal no indivíduo não como “confusões” entre o bem e o mal, mas pela própria corrupção dos seus sentidos. Esses são os efeitos noéticos do pecado, onde a mente, a razão, os sentimentos e os atributos comunicados por Deus se corromperam, foram afetados, e, muitas vezes, anulados pela transgressão, pela rejeição da vontade divina, a negação de Deus como absoluto e origem de todo o bem. O bem que o homem não quis, e o mal com o qual se acostumou até não mais poder viver separado dele. 

O homem tem sérias dificuldades de definir o que venha a ser o bem e o que venha a ser o mal, se lhe faltam parâmetros absolutos para medi-los. O pecado afetou a compreensão e o entendimento do que são verdadeiramente, por isso é necessário que o homem tenha uma ordem superior a inferir valor em tudo, a fim de que o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto, o santo e o profano, não se confundam como uma mesma coisa, originários de uma mesma matriz. 

Posto isto, veremos, a seguir, o porquê da necessidade da Lei. Ela é a resposta para a confusão humana. Colocará as coisas em seus devidos lugares, revelando o senso correto de proporção de cada uma delas, na sua origem santa ou pecaminosa. Proveniente de Deus, ou do homem caído.

Contudo, Deus, em sua infinita graça, bondade e amor, propiciou a encarnação do seu Filho Amado, Jesus Cristo, para que, por ele, e a ação do Espírito, o amor fosse redimido e restaurado. 

Como igreja, nós somos alvos do amor divino, o qual refletimos [ainda que não completamente, o que acontecerá na eternidade] e testemunhamos como filhos do Pai, e coerdeiros de Cristo, que o amor perdido e negado pode, pela graça, ser encontrado naquele que é o amor, e reconhecido daqueles que, por ele, são amados. 



A LEI

A lei é a manifestação do amor de Deus. Quando o homem cai de sua condição natural de santidade, e está diante do próprio pecado praticado e feito natureza, Deus nos deu o redentor, Cristo. Que viria para restabelecer a ordem perdida, a santidade perdida, a comunhão perdida, a direção perdida, o amor perdido. Sem Cristo, e seu sacrifício, o homem estaria irremediavelmente condenado; não uma condenação apenas ao inferno, mas a impossibilidade de qualquer comunhão com o Deus vivo. 

Vale lembrar que o homem foi criado para comungar, se relacionar com o Criador. Originalmente, ele se deleitaria na Criação harmoniosa, perfeita e santa. A mordomia era o deleitar-se naquilo que era de Deus e ele entregou em confiança nas mãos de Adão. A lei do Senhor estava escrita no coração do homem, sem a necessidade de decretos ou normas. Havia o bem. O santo. Louvor e honra a Deus. Ele estava em sintonia perfeita com o Criador. Capaz de produzir o bem e mantê-lo vivo se não existisse cobiça, mas o satisfazer-se plenamente no Senhor. 

Entretanto, o pouco cuidado de Adão consigo mesmo se refletiu na corrupção do Cosmos, no caos. Onde havia a paz, a ordem, a vida, o santo, agora, pós-queda, eram permeadas pelas disputas, as desordens, a morte e o pecado. No lugar do bem, o mal se insurgia como um adversário vigoroso e implacável. E o coração, antes um lugar frutífero e fértil, se tornava pouco a pouco insalubre e estéril. A pureza perdia cada vez mais espaço para o pecado, ao ponto de algumas gerações depois da queda, Deus, em sua justiça, destruir praticamente tudo na face da terra, por causa da corrupção a chegar aos céus. 

Se o relacionamento com Deus era a maneira pela qual o casal se guiaria e conduziria no Éden, sem ele, o homem estava desnorteado, entregue a seu próprio julgamento, posto em seu próprio caminho, que não é outro senão a morte e destruição. Era um homem sem norte, sem rumo, a tropeçar em si mesmo; e a cada tombo, cheirando a terra seca ou afundando-se na lama, ele perdia a capacidade de olhar para o alto e vislumbrar a glória de Deus, a sua bondade infinita pela qual fora criado, e pela qual subsistia. A vaidade e o orgulho foram-lhe enchendo o coração, produzida em profusão e na medida da própria corrupção, tornando-se iminente o distanciamento de Deus, e a sua substituição por ídolos que o mantinham preso ao delírio de uma existência insana sem Deus. 

Ainda que o Imago Dei não fosse completamente apagado, impedindo que o homem se entregasse totalmente ao mal, produzindo apenas danos e desgraças [se podemos chamar assim, há um aperfeiçoamento na imperfeição; camuflada pela disposição ao autoengano, produzindo um pensamento, um conceito de bondade inerente ao homem, mas que é negado pelos seus frutos. Assim ele se mantém intocado em sua pecaminosidade, sem se dar conta dela, ignorando-a, por um despiste a encobrir a verdade. O ídolo nada mais é do que isso: criar uma “realidade” postiça, delirante, ilusória, oposta à verdade de Deus], a maior parte do tempo ele estava dominado, sob o controle do pecado. Usando de uma analogia, seria o mesmo que manter um presente valioso soterrado em toneladas de entulhos, lama, destroços. 

Diante da inaptidão e corrupção humana, o Senhor, em sua infinita bondade, nos deu a lei. E o que é a lei? 

Se Adão a tinha escrita em seu coração, mas foi-se perdendo à medida que o afastamento de Deus se intensificava, o bem e o justo se dissipavam da consciência, e uns poucos vestígios eram encontrados parcimoniosamente nos indivíduos, para que o homem não fosse completamente consumido por si mesmo, e o caos imperasse nas sociedades, foi-nos dada a lei. Não mais escrita nos corações, onde não havia lugar para ocupar, mas nas tábuas e pedras. Se antes não havia sanções, mas o deleite em executá-las, mantendo-as acessas, sustentando as almas puras, a partir daquele momento elas estavam postas exteriormente, como lastro a reter a maldade interior. Seria bússola a orientar o homem em um caminho de volta à ordem manifestada na vontade divina. Paulo a chamou de “aio”, um preceptor, a educar o homem sem limites nos fins agradáveis a Deus. 

A lei não pode jamais ser entendida como um peso, seguida de um castigo doloroso. Ela tem de ser compreendida como outra prova irrefutável do amor divino para com o homem, ainda que os transgressores sejam punidos. A lei se enquadra perfeitamente no escopo da providência: a bondade de Deus para com criaturas rebeldes e indolentes. E é pela lei que a humanidade sobrevive; pelas normas de manutenção da ordem e afastamento do caos. A lei também coloca o homem em seu devido lugar, revelando a sua dependência divina, já que ela procede de Deus, de que o homem não é apenas sustentado por ele, mas é posto na linha, a fim de se manter o mínimo necessário à convivência social, a impedir a extinção radical da espécie; capacitando-os a exalar eflúvios benéficos pelo fortalecimento do bem interior, não completamente arruinado pela queda. 

Sim, a lei educa e fortalece aquilo que ainda resta de divino no homem, fazendo com que ele o manifeste, mesmo em pequenas e esparsas porções. O homem é mal não porque seja completamente incapaz de emanar frações do bem, mas por rejeitar o bem supremo, aquele que é o próprio bem, julgando sê-lo outrem ou a si mesmo. Como Agostinho disse, o bem é a ausência do mal, de forma que é impossível ser bom à revelia de Deus, sendo ele essencialmente o bem, a justiça e a santidade. 

Como Paulo nos diz sabiamente, a lei divina é um sistema de orientação, nos dispondo, impulsionando-nos à prática do bem, a fim de que o homem evite o pecado, a transgressão, tal qual os sinais de trânsito nos impedem de provocar e sofrer acidentes, se os observamos, não os rejeitando: 

“Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro.
Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é um.
Logo, a lei é contra as promessas de Deus? De nenhuma sorte; porque, se fosse dada uma lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei.
Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes.
Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.
De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados.
Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio.
Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.”
[Gl 3:19-26]



Cristo e a Lei

Alguns cristãos reputam a lei como maléfica, como um entrave à santificação e à comunhão com Deus. Tendo em vista o seu caráter obrigatório, uma exigência, entendem ser isso danoso para a vida espiritual do homem. A premissa é, muitas vezes, a de que: se não se é capaz de cumpri-la totalmente, não se deve preocupar em cumpri-la em qualquer de seus preceitos. Ora, essa não é outra senão a heresia do antinominialismo, que defende a vida cristã sem qualquer lei, apelando para a graça absoluta. É claro que a graça é absoluta, pois procede do Deus absoluto, mas estaria o homem dispensado de cumprir a Lei por um mero capricho da graça? Ou seria a graça o fomentador do cumprimento da Lei, de maneira que o homem se aprimoraria no desejo íntimo e sincero de obediência a Deus e à sua vontade? Estaria a Lei alijada da graça e vice-versa? Ou ambas seriam manifestações divinas unidas por sua vontade sobrenatural de nos fazer semelhantes a Cristo? Homens imperfeitos sendo cada vez mais identificados com o Senhor que os salvou, chamou, transformou e santificou? A salvação prescinde o zelo? E a eleição a obediência? Penso, categoricamente, que não!

A alegação de quem defende uma posição de antinomia é de que cumprir a Lei seria farisaísmo, hipocrisia, e uma atitude legalista, manifestações pecaminosas daquele que não tem a graça sobre a sua vida. Acreditam que a graça se manifesta cada vez mais onde o pecado abunda. Tomam de Paulo uma afirmação e lhe dão outro sentido, distorcendo-o, tornando em mentira a verdade, em engano a fidelidade, em morte a vida. 

“Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça;
Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor” [Rm 5.20-21]


Este trecho não sanciona o pecado, muito menos o estimula ou anula, como se o homem, debaixo da graça, pudesse abusar dela, tornando-a em desgraça. O apóstolo não está dizendo que quanto mais se peca, mais a graça se manifesta, mas que Deus, em seu amor e bondade infinitos, não levou em questão a multidão de pecados do seu povo, derramando sobre a propiciação dos pecados, ou seja, o sangue de Cristo derramado na cruz nos livra da condenação e separação eterna de Deus. Não é um salvo-conduto para o pecado. Nem o tratar com desprezo ou trivialidade. Muito menos uma forma de incentivo ou ânimo. Paulo está a dizer que onde haveria condenação e punição, Deus nos entregou a sua absolvição. Sendo todo o pecado uma ofensa direta a ele, somente o Senhor poderia nos perdoar e absolver. O duro e feroz julgamento ao qual fazíamos jus, recaiu sobre o seu Filho. Alguém teve de pagar a pena, e não fomos nós. Porque nos era impossível quitá-la. Apenas o Deus-Homem, 100% Deus e 100% Homem poderia realiza-lo; ninguém mais. 

Quando Adão cai, todos nós caímos. O pecado nos foi transmitido como por uma doença altamente contagiosa, da qual ninguém a não ser o Santo estava imune. Sim, ainda que fosse uma possibilidade, a de que Cristo pudesse pecar, não havia potencialidade nele para a transgressão, para a rebeldia. Pelo contrário, como ele mesmo disse, viera ao mundo para fazer a completa vontade do Pai, cumprindo toda a Lei, e padecendo como um inocente. 

Naquela cruz, o Santo, imaculado, sofreu o castigo que nos pertencia, do qual não poderíamos nos livrar, se o esforço empreendido fosse nosso. Por mais empenho e disposição no sentido de obediência à lei divina, ela estava a nos acusar a todo momento, espetando-nos com sua ponta dura e letal, desferindo golpes mortais na carne e na alma, fazendo-nos definhar pouco a pouco ao seu castigo, à sua implacável justiça. 

Com isto, não estou dizendo que a Lei é pérfida ou injusta, mas de que ela, sobretudo, aponta-nos a condição de perdidos, afastados, inimigos de Deus, quando a transgredimos, quando insidiosamente tentamos burlá-la, negligenciá-la, desafiá-la, desrespeitá-la. Assim fez Adão. O homem que deveria cuidar da mulher, de toda a criação, como mordomo instituído por Deus, sucumbiu aos apelos néscios de Eva. Da serpente. Não foi a Lei a instiga-lo, mas a cobiça. Não o preceito a inflamá-lo, mas a soberba e a vaidade. A santidade já não era possível ao coração inclinado à desobediência. A pureza não mais o dominava; a fleuma da concupiscência tomava-lhe o lugar. Nem toda a profusão de bênção e favores dados por Deus seriam capazes de impedir o ingrato de desprezá-lo. Adão olhava o fruto. Apetecia-lhe o fruto. Desejava-o. Não resistiu a tocá-lo. Nem o comer. O cravar-lhe os dentes foi apenas o ponto final de uma longa trajetória de declínio e morte. Não foi o início, mas o desfecho final da tentação, da rebeldia presente nos primórdios do seu desejo. 

Adão pouco a pouco se convenceu de que a realidade apresentada por Deus era falsa, mentirosa, e de que a ilusão proposta pela serpente era factível e verdadeira. Não sabemos quanto tempo durou o convencimento para a queda. Segundos, minutos, horas. Talvez dias. O certo é que quanto mais se deixava enredar pela fraude, mais ela se solidificava em seu coração. O pecado se agigantou, tomou-lhe a vida, e não mais era possível resistir, a partir de certo ponto. Adão poderia manter-se fiel a Deus com uma simples recusa: bastaria expor a serpente ao ridículo, lançar-lhe em rosto a sua desfaçatez e ignominia. Como ele poderia se deixar enredar por alguém de quem pouco ou nada conhecia? 

Ao contrário, Deus já havia lhe provado quem era, não poderia existir dúvidas de quem era; os seus feitos, a sua bondade, o seu cuidado, misericórdia e providência falavam por si. Era clara e nítida a boa-vontade divina para com o casal; entretanto, negaram ouvir a sua voz, dando trela à serpente [deixando-se enganar] que se viu estimulada a permanecer firme no intuito de destruí-los. 

Não é assim que procedemos, negando ouvir a voz de Deus, em favor do nosso eu ou de outro eu? Em disposição, ainda que sincera, de sermos ludibriados? De não reconhecer aquele que é o doador de todas as coisas, que age com infinita misericórdia, para entregar-nos a nós mesmos ao ladrão de corações? O inimigo odioso de almas? Ah, quão triste será para aqueles que se entregaram ao grito estridente de morte do diabo; passar a eternidade em tormento e castigo indescritível com o algoz. Não satisfeito em aniquilar-se, arrogante e presunçoso, arrasta consigo multidões de tolos que se entregam às suas artimanhas. Vê-lo sendo castigo poderá trazer algum alívio, mas não impedirá aqueles que o seguem de compartilhar da sua dor. Não importa em que nível, o flagelo de satanás e seus anjos será o mesmo do homem reprovado. Se o sangue de Cristo não o alcançar, a vara imperdoável de justiça do Pai o flagelará. Apenas o Filho pode livrá-lo da tormenta no inferno; e bom seria se cada um dos homens se apercebesse disso o mais rapidamente possível. Mas sabemos que o coração indolente e obstinado somente poderá reconhecer-se como tal se quebrantando, se esmagado pelo amor de Cristo, o qual nos constrange. A dureza e impertinência da morte tem de ser esmigalhada, pulverizada, pela graça, a fim de que um coração de carne viva. 

Se Cristo não o encontrar, o homem jamais será achado. E se perderá definitivamente na própria multidão de pecados. Enquanto as transgressões o sufocam, o imobilizam em correntes de contenção, o desespero antecede a dor, enquanto o verdugo se aproxima, e não lhe restará nada além de lamentar amargamente, ou praguejar estupidamente, pela derrota que tão desleixadamente acalentou, cultivou, em meio aos alertas insistentes da palavra, e à exortação para reconciliar-se, abandonando os caminhos erradios, a fim de seguir os passos de Jesus. 

Enquanto Adão for o protótipo do homem, a voz da serpente estará sempre a soar em seus ouvidos, como o sibilar da mais terrível desgraça. E mesmo quando for picado fatalmente, acreditará ouvir o som matinal dos pássaros, como se o despertassem para a vida, quando ela é uma lembrança antiga dos tempos em que o homem vivia no paraíso; mas em sua confusão, desnorteado, era incapaz de retomar o caminho. O único guia e mestre foi desprezado; o cego a acurar os ouvidos ao chamado próprio, ou ao apelo de outro perdido. 


[Continua...]