14 setembro 2011

Agostinho: a aflição do homem e o descansar em Deus



- Pequena reflexão a partir do livro II de “Confissões”, de Agostinho -


Por Jorge Fernandes Isah

No livro, Agostinho trata do pecado, mais especificamente, dos seus pecados. O tema é a depravação humana a partir dos seus exemplos pessoais e da experiência pecaminosa adquirida; do seu afastamento de Deus; da sua desobediência à lei divina; do gozo e prazer com tudo o que se podia configurar "mundano".

Agostinho abre a sua alma a Deus; o livro é uma grande oração, onde o seu coração é posto no lugar adequado: em Cristo, sua misericórdia e sacrifício.

Ele tece um longo poema em que as palavras fluem ritmadas; em que busca as mais profundas e límpidas expressões para retratar o que sentia à época em que era incrédulo, e também da sua alegria após a conversão e a reconciliação com Deus. "Confissões" é um fluir e brotar do espírito quebrantado e submisso ao Senhor.

Não há a preocupação em explicitar a teologia, ainda que ele faça teologia no livro. Não há lugar para o debate teológico, ainda que se possa discutir suas idéias. Por exemplo, ao afirmar que a cada dia se afastava mais de Deus, podemos entender que:
1)Havia um distanciamento maior, uma impossibilidade de se aproximar dele; e de que se encontrava cada vez mais afastado, a partir do afastamento inicial.
2)Ou pode-se ter a impressão de que em algum momento o homem esteve próximo de Deus e, com o decorrer dos dias e dos pecados, vai-se afastando naturalmente dele.
Aqui, nitidamente, Agostinho aponta para o conceito 1), a partir da separação inicial, o homem vai-se distanciando ainda mais da comunhão e santidade divinas. 

Há de se entender que Agostinho acreditava na doutrina da pré-existência da alma, o que pode levá-lo a crer, em algum momento, que essa alma estava com Deus. Ao encarnar-se, assumindo a carne, ela irá afastar-se de Deus, em virtude do pecado original. 

De qualquer forma, sem entrar em todos os pormenores que envolvem a questão, a afirmação de que quanto mais o homem peca, mais se afasta de Deus, é bíblica e correta. Apenas esse homem já está afastado, nunca teve comunhão com o Senhor, e labora para ir ainda mais para longe dele em seu estado de rebeldia.
Em toda a sua vida iníqua, em que o prazer ilícito e o desejar desfrutá-lo trazia-lhe uma alegria fortuita, ele reconhece a misericórdia divina em perdoá-lo de todos os seus pecados; reconhecendo a obra de Deus em resgatá-lo da podridão em que se encontrava; e, ao experimentar o seu amor e graça, percebeu a perenidade desse amor e da felicidade advinda dele, e a fugacidade daqueles outros "amores" terrenos: "Eis o meu coração, Senhor, o coração que olhaste com misericórdia no fundo do abismo. Que o meu coração te diga, agora, o que procurava então, ao praticar o mal sem outro motivo que não a própria malícia" [pg. 55].

O autor declara o estado em que se encontrava antes da conversão, o estado de impiedade; um aliado do mal; um coração aprisionado e atormentado, antes de Deus retirá-lo, por sua misericórdia, do fundo do abismo. 

As declarações que se seguem, e as descrições que as acompanham, indicam uma alma depravada e impossibilitada de se aproximar de Deus; a cada dia mais envolvida com o pecado, desejando-o; e desprezando a Deus; completamente afastada dele.

Agostinho afirma a quase suficiência das obras más na vida do homem caído: "As próprias obras é que prejudicam os malvados" [pg 58]. Mas em qual sentido? Estariam elas independentes da vontade do homem? Seriam maiores que ela? Ou até mesmo do homem? Ou ao se concretizarem, sendo obra consumada [a realização temporal, prática, efetiva do pecado] é que os tornaria em homens perversos?

Agostinho considera o homem que comete tais obras como já sendo mau. Não há bondade nele, e o que acontecerá nada mais é do que a vazão pecaminosa indicando-lhe o caminho de perdição e de pecado, que culminará na condenação daquele que não creu no poder regenerador e salvífico do nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao citar o dia em que ele e os amigos invadiram uma propriedade e furtaram pêras, pelo simples prazer do furto, para lançá-las fora, resumiu: "O fato é que não eram os frutos que me atraíam, mas a ação má que eu cometia em companhia de amigos que comigo pecavam" [pg 61]. 

Claramente, ele notifica não a fome, nem a beleza dos frutos, nem o seu sabor, ou o desejo de ganhar algum dinheiro com eles, nada disso. Agostinho nos fala apenas da ânsia de cumprir na sua carne o mal que habitava nela; a realização do desejo suficiente em si mesmo, e vivendo por si mesmo. 

Mas há nele, agora, o arrependimento: "Eu, miserável, que frutos colhi das ações que cometi então e que agora recordo envergonhado, especialmente daquele furto que me satisfez pelo furto em si e nada mais? De fato, ele em si nada valia, e por isso me tornei ainda mais miserável!" [pg 61].

Para em seguida perguntar [sentenciando]: "Quem me pode responder senão aquele que me ilumina o coração e lhe dissipa as trevas?".

Falando da paz pela santidade, conclui: "Quem mergulha em ti, 'entra no gozo do seu Senhor', não terá mais receio, e permanecerá sumamente bem no Bem supremo. Desandei longe de ti, meu Deus, e na minha adolescência andei errante sem teu apoio, tornando-me para mim mesmo um antro de miséria" [pg 62].
O homem arrependido dos seus pecados e submisso a Deus, glorifica-o, e não tem parte no mundo, está nele, mas não é parte dele: "A amizade a este mundo é de fato adultério, prevaricação e infidelidade a ti" [pg 36 – referindo-se a Deus]. 
Que o bom Deus nos dê um coração quebrantado e submisso ao nosso Senhor Jesus Cristo, que pagou alto preço para que fosse derramado sobre nós a sua graça e misericórdia eternas e infinitas.


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8 comentários:

  1. Jorge,

    Excelente texto! Olhando este trecho das "Confissões" de Agostinho, remeto-me à minha própria história de vida, nos tempos em que, por opção, me distanciei de Deus abraçando os prazeres terrenos. E é exatamente como ele que analiso aquela época: miséria e mais miséria! As escamas caíram dos meus olhos e agora enxergo com perfeição, graças ao bom Deus.

    Sem rasgação de seda, reconheço publicamente que você, caro irmão, está escrevendo cada vez melhor. Parabéns, para a glória de Deus.

    Abraços!

    Ricardo.

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  2. Ricardo,

    obrigado pelo comentário e o elogio. Não sei se é para tanto, mas como é um amigo, dou um desconto e reputo-a como bondade sua.

    Realmente sugiro a leitura do "Confissões" [e de todos os demais livros de Agostinho; apesar de ter lido apenas o "Livre-Arbítrio"], é um texto autobiográfico, mas também teológico, doxológico, filosófico, etc. Agostinho se dá bem em quase tudo o que toca, mas o que mais me alegrou na leitura do livro foi a sua devoção e reverência a Deus, reconhecendo em Cristo e sua obra o único caminho para o homem perdido em seus pecados e inimigo de Deus.

    Ele exalta a graça e misericórdia do nosso Senhor como poucos são capazes de fazê-lo.

    Grande abraço, meu irmão!

    Cristo o abençoe!

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  3. Oi Jorge,

    Realmente "não é para tanto", mas se a gente não bajular os comentários podem não ser exibidos. rsrsrs - brincadeira.

    Mas concordo com o Ricardo, seu estilo está melhorando muito. Está mais cristalino.

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  4. Ednaldo, Ricardo e demais amigos,

    muito bom tê-los; mesmo que seja discordando, para então perceber que vocês reservaram um tempo que poderia ser gasto diferentemente, mas foi preferível gastá-lo comigo. Pois tanto o elogio como a crítica significam um carinho que não entendo, que não mereço, mas que reputo como fruto da graça de Deus, por aqueles que sabem o que não sei, e se importam quando muitas vezes não me importei. Vocês são muito melhores do que jamais serei, até aquele glorioso dia quando todos seremos iguais ao nosso Senhor.

    Aos meus amigos, a minha eterna gratidão, seja no elogio ou crítica, desde que sincera, claro! Muito obrigado!

    Grande abraço!

    Cristo os abençoe!

    PS: Não se riam! Tendo a "dramatizar" quase tudo [como um irmão apontou certa vez], o que torna minhas declarações espontâneas meio melodramáticas. Mas é assim mesmo; é o que sou, meio hiperbólico [rsrs].

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  5. Parabéns por mais um excelente texto!!! Temos muito a aprender sobre nós mesmos com Agostinho e sua experiência pessoal.

    Nelson Ávila.

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  6. Nelson,

    valeu, meu irmão!

    Não devemos desprezar a voz dos santos em todos os tempos, pois como você disse, temos muito a aprender com todos eles.

    Grande abraço!

    Cristo o abençoe!

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