01 setembro 2017

Jó: O livro das belezas





Jorge F. Isah




Este foi um livro surpreendente! Dos melhores que li ultimamente. 

Indicação sempre bem-vinda do professor e crítico Rodrigo Gurgel. 

Um aviso: muitos que não leram o livro poderão achar confusa a minha resenha; e o objetivo é esse mesmo, não tirar do leitor o desejo de ler o livro, entregando-lhe um resumo ou pistas muito claras do que encontrará. Contudo, se você o leu, ou reler a resenha após lê-lo, entenderá melhor os pontos que ressaltarei a seguir. 

Vamos a eles, então. 

O título do livro remete ao personagem histórico/bíblico Jó, um homem poderoso, rico, e justo diante de Deus, o qual perdeu tudo, de uma hora para outra, e passou a viver na indigência e na enfermidade, sendo abandonado até pela esposa, tendo por companhia alguns amigos a questionarem a sua fé e moral, por conta dos seus infortúnios. 

Mendel Singer, um homem comum, piedoso e temente a Deus, mora em Zuchnow, com a esposa e quatro filhos, levando uma vida simples, na qual é um professor da Bíblia para crianças. Esta é a principal fonte de renda da família. Ele não é um homem de muitas alegrias, mas uma tristeza o aflige sobremodo e à sua esposa, o filho caçula Menuhim, uma criança débil de nascença, e pela qual eles oram, incessantes a Deus, por cura. 

Alguém disse que ao contrário do verdadeiro Jó, Mendel não manteve a sua fé e esperança, em meio as vicissitudes. Não penso assim. Mas antes, sem contar propriamente a história, para não tirar a curiosidade e o gosto dos futuros leitores, faz-se necessário dizer que, em dado momento, ele e sua família se veem obrigados a ir para a América, lugar onde um dos filhos se estabeleceu e prosperou, fugindo do recrutamento do exército russo. Lá, ele é conhecido como Sam, ao invés de ser o Schemarian da terra natal. Uma alusão à perda da identidade ou o esquecimento de quem se é. 

O motivo da viagem está diretamente relacionado com a filha Miriam, mas não o citarei. Um detalhe importante é o fato de dois dos seus filhos não viajarem. Novamente, não darei os motivos; mas há aqui, também, um simbolismo, a perda de elementos de identidade, de coisas que eles são obrigados a deixar para trás, numa fuga dolorosa a impossibilitá-los de estarem por inteiro; e para aonde vão estarão sempre fracionados, incompletos. Nunca serão os mesmos, enquanto as partes separadas não se unirem novamente. 

Na América, em uma cultura completamente diferente (uma referência a um exílio, uma diáspora para os Singer), Mendel mantém os seus hábitos judeus, suas orações e rituais, que o faz permanecer sendo quem é, ao menos como uma tentativa, mesmo não estando onde deveria estar; mas sempre com um desejo íntimo, indolente, de voltar à sua terra, à vida e ao lugar dos quais não consegue se separar, nem pode escapar. 

Porém, tudo muda em uma sucessão de tragédias a aflorarem em sua vida, tal qual o personagem bíblico. Ele, então, rejeita a sua fé e a crença em Deus, e mesmo admoestado pelos amigos, recusa-se a voltar a ela. É a obstinação do homem em lutar contra Deus, contra a realidade, uma tentativa impossível de, pela rebeldia, encontrar-se consigo, com o homem perdido, e desconhecido; de encontrá-lo em um esconderijo, de onde nada se sabe, nem o lugar, nem como alcançá-lo. Negar-se a si mesmo passou a ser a maneira de Mendel conviver com a dor; negar a Deus o afastaria do seu passado; negar a esperança o distanciaria do seu futuro. Mendel era o homem fora do tempo, a vagar como um espectro pelas ruas de Nova York, como uma caixa pesada imóvel, na qual todos tropeçam.

De alguma maneira, havia uma esperança oculta no sofrimento, e ela o chamava pelo que ainda poderia reencontrar, a identidade perdida no abandono da fé e na ausência de elementos que o fizeram, até então, ser quem era Mendel Singer, agora eram ansiados como uma última chance de se reencontrar, de mitigar o novo homem nos lombos do velho homem, e vislumbrar alguma alegria, ou a resignação dolorosa do sofrimento, caso tudo estivesse realmente perdido. 

Entretanto, há milagres; e Mendel vivencia-os. Algo inimaginável, em meio às seus sofrimentos, acontece, como se Deus finalmente olhasse para aquele homem miserável, e triste, e amargurado, lançando uma intensa onda de favores. Há a restauração da alma de Mendel, há a esperança, novos dias, um futuro no qual Deus o conduziu à reparação, o mesmo que levou Jó a receber tudo o que perdera em dobro e muito melhor. 

Cenas emocionantes acontecem quando ele ouve, em um disco, a "Canção a Menuhim", e o encontro com o seu passado, porém tornado em um futuro esplendoroso. Mendel renasce; e não lhe é reserva apenas a morte, o abandono, a personalidade soterrada no dissabor, mas o alvissareiro frescor da felicidade, do reencontro consigo mesmo, do homem perdido em si, mas encontrado no milagre, no sobrenatural, na vida transformada e abundante, em proporções muito maiores ao que sentira, mesmo na existência aparentemente completa do velho homem. 

Mendel nunca será o mesmo; aquele homem foi aperfeiçoado pelo sofrimento, restando agora o homem completo, como jamais pode imaginar ser. Assim é retratado pela última frase: 
"E descansou do peso da fortuna e da grandeza do milagre".

Um livro onde nada, nem mesmo as mazelas e o sofrimento, tira-lhe a beleza.

Dados Técnicos: 
Título: Jó - Romance de um homem simples
Autor: Joseph Roth
Editora: Cia das Letras
No. Páginas: 200

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